
“É fácil julgar, é fácil apontar, criticar… A verdade é que provavelmente exista algo interno, como trauma, insegurança, medo ou abuso, que precisa ser tratado nessa pessoa que se submete a relacionamentos tóxicos”. A psicóloga augustinopolina Patrícia Martins Araújo explica que é possível sair de situações de dependência emocional, desde que tomadas decisões e atitudes assertivas.
É preocupante a quantidade de pessoas, em sua maioria, mulheres, que aceita permanecer em relações tóxicas, seja pela esperança de que o outro mude, a vontade de dar “só mais uma chance” ou o medo de se sentir frustrada por não ter conseguido “salvar” o relacionamento ou o companheiro. Vale lembrar que se trata de uma relação, não uma missão de sacrifício angustiante.
Com frequência, a mulher que se submete espera e até exige uma conduta amorosa do parceiro, mas ela precisa entender que ele escolhe se vai ter essa conduta ou não, afinal, ninguém pode obrigar outrem a se comportar de determinada forma. Por outro lado, ela decide se vai permanecer do lado dele e com as condições impostas por ele – já que pessoas abusivas não costumam ser flexíveis.
“É importante não responsabilizar o outro pela sua felicidade ou bem-estar. Ele pode somar ou acrescentar, porém jamais ser o total motivo de sobrevivência emocional. Saudável seria a percepção da felicidade a partir da própria companhia”, diz Patrícia.
A situação fica mais complicada porque às vezes a pessoa envolvida realmente não percebe o que está acontecendo, pois seu inconsciente projeta a situação de forma distorcida, usando justificativas. Ou então ela até percebe, mas acredita que não tem forças para mudar.
No entanto, a psicóloga garante que não há quadros de dependência emocional impossíveis de serem solucionados, mas é necessário uma firme decisão e, em muitos casos, fazer o acompanhamento com especialistas.
“A pessoa que se submete não consegue perceber que quem está doente na relação é ela e, já que o outro não muda, ela é que precisa se posicionar de uma forma diferente. Antes de tentar encontrar no outro o que tanto busca, é necessário se reencontrar, fazer um resgate do próprio ‘eu’ e valorizar a sua capacidade de permanência em relações saudáveis. Isso inclui principalmente o fim da dependência. O amor mendigado tem o poder de destruir internamente qualquer parceira ou parceiro”, alerta.
Em uma relação do tipo, automaticamente um dos dois se coloca na posição de controlador e o outro, de submisso. É muito difícil ambos não se machucarem assim. “Precisa deixar de temer a solidão, deixar de buscar a aprovação das pessoas, evitar a posição de submissão e o sentimento de culpa, porque na maioria das vezes o seu parceiro lhe diz que você precisa ser exatamente o que ele quer que você seja. Se ele verdadeiramente a ama, não lhe fará tais exigências. Ser livre interiormente é se libertar também do sentimento de possessividade devido ao medo de ser definitivamente abandonada”, explica a psicóloga.
Como identificar relações abusivas
O primeiro passo para resolver a situação é refletir sinceramente: até que ponto você vive para o outro? Até que ponto você diz “sim” ao outro e “não” a si mesma? O quanto prevalece a sua opinião nesta relação? Qual é o nível de flexibilidade do seu parceiro? Você sente que ele “suga” sua energia emocional de alguma maneira? Sente medo da forma com a qual ele se impõe?
Todos os relacionamentos possuem problemas, mas se o que você está vivendo está lhe incomodando, cuidado para não usar justificativas. Também é comum alguém se libertar de uma relação dependente, entrar em outro relacionamento e repetir os mesmos erros. Por isso, mais uma vez lembramos a importância de resolver primeiro as questões internas.
(Ionnara Lima – Voz do Bico. Revisão: Psicóloga Patrícia Martins Araújo)