
Psicóloga hospitalar destaca como desigualdades sociais, violência, precarização do trabalho e dificuldades de acesso a direitos podem agravar o sofrimento psíquico
Outubro marca mais um período dedicado ao diálogo e à conscientização sobre a importância da saúde mental. O Dia Mundial da Saúde Mental, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), busca ampliar a compreensão sobre os transtornos mentais, combater o preconceito e estimular a adoção de políticas públicas voltadas ao bem-estar psicológico da população. Keene Pedreti, psicóloga hospitalar do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT), vinculado à HU Brasil, destaca a relevância da data e do ambiente hospitalar para a promoção e o debate sobre o tema.
Para a especialista, conversar sobre saúde mental implica reconhecer que o sofrimento psíquico faz parte da experiência humana. “Conflitos, perdas e acontecimentos difíceis são inevitáveis na vida e produzem dor. Mas, quando o sofrimento se intensifica de modo a comprometer a qualidade de vida e as relações interpessoais, é importante que o sujeito possa reconhecê-lo e busque ajuda”, alerta Keene.
Segundo a OMS, saúde mental não significa apenas a ausência de doenças ou transtornos, mas um estado de bem-estar que permite ao indivíduo lidar com os desafios da vida, desenvolver suas habilidades, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sociedade. A organização destaca que condições como ansiedade, depressão e síndrome de burnout estão entre os principais desafios de saúde pública da atualidade e afetam pessoas que enfrentam diferentes dificuldades cotidianas.
Como ressalta Keene Pedreti, a falta de moradia adequada, as desigualdades sociais, a precarização do trabalho, o endividamento, a violência, o racismo, a fragilidade da rede de apoio e as dificuldades de acesso a direitos, entre outros fatores, também podem provocar ou intensificar o sofrimento psíquico. “Portanto, a prevenção em saúde mental não se restringe à identificação precoce de sintomas e à procura por atendimento psicológico, mas implica também refletir sobre as condições sociais que produzem efeitos sobre a subjetividade humana”, acrescenta a especialista.
Desafios em números
No Brasil, a saúde mental tem ganhado cada vez mais destaque diante do aumento dos casos de adoecimento psíquico. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2024, mais de 440 mil trabalhadores foram afastados do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, número recorde na série histórica. Entre as principais causas dos afastamentos estão os transtornos de ansiedade, os episódios depressivos e as reações ao estresse grave.
Há pouco mais de um ano, o Ministério do Trabalho e Emprego também ampliou as diretrizes da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), incluindo medidas de prevenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Com essa atualização, fatores como assédio, excesso de cobranças, jornadas exaustivas e condições inadequadas de trabalho passaram a integrar a lista de riscos à saúde mental que devem ser considerados pelas organizações.
No contexto hospitalar, a presença do psicólogo é fundamental para a promoção da saúde, uma vez que a hospitalização pode provocar sofrimento significativo aos pacientes. “Às vezes, é bastante sofrido lidar com a quebra na rotina, a insegurança financeira, o afastamento dos vínculos afetivos, a perda de autonomia e de referências culturais”, destaca Keene.
Nesse cenário, a psicóloga hospitalar oferece um espaço de escuta ao paciente, favorecendo a elaboração psíquica da experiência de adoecimento e a construção de recursos que possam auxiliar no enfrentamento da doença. O trabalho envolve também a escuta dos familiares, o diálogo com a equipe multiprofissional e a articulação com os demais serviços da rede de atenção à saúde. “É uma atuação que não se restringe aos muros do hospital e pode contribuir para a continuidade do cuidado após a alta”, afirma.
Ao concluir, a especialista ressalta a necessidade de refletir e agir coletivamente para promover a saúde mental, considerando o indivíduo e as condições que o atravessam. “Não basta esperar que cada sujeito desenvolva recursos psíquicos para enfrentar as vicissitudes da vida. É necessário também interrogar as condições concretas de existência, o acesso aos serviços de saúde e as condições de trabalho que repercutem diretamente na saúde mental”.
Saúde mental e trabalho
O Ministério da Saúde reconhece os transtornos mentais relacionados ao trabalho como um importante problema de saúde pública. De acordo com o órgão, sintomas como tristeza persistente, ansiedade, irritabilidade, medo excessivo, esgotamento emocional e alterações psicossomáticas podem estar associados às condições e à organização do trabalho, exigindo atenção dos serviços de saúde e das empresas.
As estatísticas evidenciam esse impacto no ambiente profissional. Em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social, foram registrados 546.254 afastamentos decorrentes de ansiedade, depressão, depressão recorrente e síndrome de burnout. Especialistas da área alertam que investir na promoção da saúde mental traz benefícios tanto para os trabalhadores quanto para as instituições. Entre as medidas recomendadas estão a oferta de acompanhamento psicológico, a implementação de políticas de prevenção ao estresse e o incentivo ao equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional.
HU Brasil