Voz do Bico

A máquina

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Foto: Arquivo pessoal

*Por Angelo Cavalcante

Houve um tempo, um estranho e sombrio tempo em que dados e informações eram concentradas ou hiper-concentradas; sim… Houve, de fato, um tempo onde ideias, pensamentos e formas de comportamento eram ditadas, orientadas, determinadas por uma, digamos assim, “máquina”.

“Máquina” mesmo… Com tiras, correntes e correias de transmissão, engrenagens, parafusos, arruelas e lubrificantes. Era íntegra, coerente e operante.

Nesse tempo, a “máquina” possuía a plena capacidade de criar e definir cenários, conjunturas e relações; dava forma, materialidade e movimento para entes imaginários (fossem eles espíritos, espectros, anjos, santos, demônios ou legiões de demônios!).

A “máquina” era a senhora da vida e da morte; dizia, afirmava o que era racional, aceitável ou não; o que era permitido, decente, indecente e pecaminoso e, de verdade, quase não havia vida possível fora de suas determinações.

A “máquina” já operava – se espantem! – com inteligência artificial; dava forma para rostos, discursos, debates e perspectivas. Ao fim, dizia o que era certo, errado, feio, bonito e mais… O sexo mais particular, singular e íntimo entre as pessoas perpassava pelas imposições da “máquina”.

Vocês realmente acham que toda essa orgia, essa bacanal info-digital e que estamos a viver contemporâneamente é novidade?

Olha… Nesse tempo, a “máquina” operava com tal e qual força, intensidade e poder que pais chegavam a denunciar seus filhos; os filhos faziam do mesmo; intelectuais que se pusessem a questionar idas, vindas e contradições da “máquina” estariam mortos.

Não… Não estariam mortos simbolicamente! Não estou a me utilizar de figura de linguagem… Estariam fisicamente mortos! Em fogueiras, empalados ou desmembrados em masmorras.

A “máquina” controlava estados, impérios, reinados e determinava geopolíticas; afirmava quem eram amigos e apontava inimigos… Se não existissem inimigos, a “máquina”, é claro, os criava.

A “danada” já se utilizava de “key-words”; algumas delas eram: deus, diabo, poder, fiéis, infiéis, bruxas etc.

Suas verdades era incontestáveis, suas bulas estavam “isentas” de falhas e erros; suas doutrinas apontavam os rumos do real e do material.

Nesse paralelo, gerou formas de pensar, formatou sensibilidades, percepções e afetos e desse específico quadro irá despontar em seguida, reparem bem, no alem-mar, inimigos de tipo novo… Eram índios, negros e mais uma gente pagã e “sem alma”; eram populações viventes, sobretudo, abaixo da linha do Equador.

Sabem dos algoritmos e que hoje nos perseguem nas redes? Ora… Tentem buscar um sapato, um livro ou uma ferramenta de jardim? Então… Acreditem… Eles – os algoritmos – já estavam nessa “máquina”; perseguiam pessoas, escolas, universidades e analistas da época.

E partiam aos milhares e milhões contra pensamentos minimamente sérios e sensatos. Para os dias de hoje, seria essa forma articulada e sistematizada de buscar e apreender o movimento do real e que chamamos de ciência.

Pois sim… Essa “máquina” concentradora de dados; que realizava síntese dessas mesmas informações e que, por conseguinte, ordenava populações do mundo aos seus interesses e intenções apeteceu nisso e que historiadores chamam de medievo; eliminou milhões de seres humanos, gerou milhares de guerras e conflitos localizados e determinou parte das fronteiras, inclusive, fronteiras do mundo atual.

Não estamos vivendo uma novidade e o poder jamais pode ser tão concentrado!

JAMAIS!

Angelo Cavalcante é Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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