Voz do Bico

A política de identidade e a identidade na política: o caso da corrida à Casa Branca 2020

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Dhiogo Rezende Gomes. Foto: Divulgação.

* Por Dhiogo Rezende Gomes

A identidade nos nossos tempos ditos pós-modernos foi descentrada da constituição da identidade na modernidade. Stuart Hall traz três dimensões de sujeitos, o iluminista, o sociológico e o pós-moderno. O primeiro é centrado em si, no seu Eu que pensa e logo existe, um sujeito cartesiano que teria superado as trevas de um medievo onde a sociedade se distinguia entre indivíduos que nasciam para um determinado destino, do qual não poderiam fugir, só acatar a vida e o seu fim, no plano definido por Deus.

A maioria viria ao mundo para trabalhar (servos), minorias viriam para lutar (nobres) e para orar (clero). Uma sociedade cuja verdade (única) se estabelece por uma interpretação dominante onde um Deus cristão define papeis e funções sociais, não sujeitos.

A ideia de sujeito, uma ontologia desprendida do divino, renascida de elementos de sujeito na antiguidade clássica, envolvendo noções de cidadania, de direitos, ferve contestando verdades e irrompendo o poder político absoluto por volta do século XV. A modernidade é demarcada definindo essa ideia de sujeito que embora transitório na identidade, coloca-se em jogo num mundo ocidental capitalista de grandes transformações e instabilidades, um mundo ocidental onde tudo que é sólido se desmancha no ar como disse Marx.

O sujeito sociológico emerge no século XIX, ciências sociais ocupam-se com a interação individuo-coletivo, compreende-se que ninguém é uma ilha, as relações sociais, distâncias e proximidades humanas entre sociedades são medidas e hierarquizadas num darwinismo social. Povos são racializados justificando domínios e explorações em releituras da civilização dita moderna.

O sujeito pós-moderno acompanha o dinamismo da sociedade na modernidade tardia, liquida como define Bauman, com identidade na rasura, com a representação em crise, multiplicam-se possibilidades de identificação que se manifestam no cotidiano das relações. As gerações se distanciam, os avós e pais do século XX estranham o mundo acelerado e globalizado dos anos 80 e 90, com seus filhos abrindo o guarda roupa e trocando de identidade.

Da juventude a maturidade é possível ser e viver muitas coisas, muitos símbolos e representações para chamar de seus. Aquele sujeito que se apresenta sólido, centrado em certos valores estáveis, que entra no emprego ou profissão, exercendo um trabalho imutável até a aposentadoria, está desaparecendo.

Com a emergência do movimento feminista do início do século XX, tivemos um dos grandes pontos do descentramento do sujeito moderno. O feminino reclamou-se como sujeito diante de uma das bases da modernidade, o patriarcalismo que se conecta estruturalmente com o racismo dentro de um projeto de mundo branco eurocentrado. Homens brancos foram interpelados pela presença das mulheres, os corpos e as liberdades sexuais passaram a ser pautas sociais importantes e elementos na luta política, para além de gênero, a identidade passou a ser politizada para questões étnico-raciais e de classe.

Desde os anos 60, grupos e minorias marcham organizados em movimentos, levantam-se contra subalternização com seus saberes sujeitados como diz Foucault, construindo-se conhecimentos e narrativas que apresentam múltiplas identidades e sujeitos ao mundo.

Nesse contexto, trago um exemplo emblemático do jogo das identidades no campo político. Divido em duas partes, quase que como dois tempos de uma partida de futebol, com a bola em jogo até o presente momento desse texto.

Primeiro tempo: Em 1991, o presidente George W Bush (o pai) indica para Suprema Corte, o juiz Clarece Thomas, o segundo negro na história da corte, indicação que veio dos Republicanos. Então temos aí a identidade em campo, sabemos que historicamente e nas disputas simbólicas, o Partido Republicano, conservador, não se aproxima das pautas e referências do movimento negro estadunidense, este que se coloca mais à esquerda, nas ideias e projetos progressistas dos Democratas.

Assim, a indicação de Thomas acenou para a população negra nos EUA? A indicação queria passar uma noção de que não há racismo? Mas enquanto as mulheres? A corte é predominantemente formada por homens/brancos.

O jogo segue. O juiz Thomas é acusado de assédio sexual por Anita Hill que anos antes trabalhou no mesmo órgão público em que Thomas era chefe. O juiz foi confrontado na sua posição de magistrado para Suprema Corte. Seria esse o comportamento de um conservador? Ao mesmo tempo, ativaram-se na época as características misóginas e racistas interseccionadas e identificadas no campo conservador em apoio ao acusado.

Neste caso, Hill, uma advogada negra, teve que acusar e se defender, pois a audiência no Senado, parte da sabatina para aprovar Thomas na Corte, virou um caso marcado pela assimetria entre as partes, uma maioria de homens brancos, deslocou qualquer possibilidade de culpa do juiz transferindo-a para vítima. Os assédios relatados foram tratados como normais se existiram e como melindres da acusadora. Anita Hill, uma mulher negra diante do peso de uma das instituições mais elitistas do seu país, este caso trouxe para o debate público, as contradições, armas e armadilhas da identidade, o juiz é negro, mas é conservador até mais que os brancos conservadores, Anitta Hill é mulher, mas é negra, homens brancos e negros, mulheres brancas e negras, conservadores e progressistas americanos tomam suas posições na partida e jogam cruzando elementos identitários.

O segundo tempo: Passados quase 30 anos, a identidade continua em jogo, Anita Hill recebeu uma ligação, do senador que presidiu aquela audiência em 1991 como parte do processo de admissão do Juiz Thomas. Trata-se do senador Joe Biden, sim, o ex-vice do presidente Obama, o primeiro negro na Casa Branca. Este que agora é o candidato democrata contra o republicano Donald Trump na corrida presidencial de 2020.

O atual presidente que é identificado e em muitas falas do passado e do presente, se identifica com uma supremacia branca que tem seu lado bem definido, aquele em que com certeza contesta e abomina as pautas do povo negro. Já Biden, tenta se firmar sem tanta segurança no flanco progressista, este que por oposição se aproxima das pautas identitárias das minorias e das questões étnico-raciais, de gênero e sexualidade.

O trauma de Anita Hill¹ continua como moeda política no jogo da identidade. Biden tenta rever sua neutralidade de homem branco na época do caso de Hill, ligou para dizer que lamenta o que ela passou depois de décadas, justamente no ano em que concorre a presidência.

Anita Hill cuja identidade de mulher negra se faz política no sentido distinto da “política” dos homens brancos, conservadores ou progressistas, respondeu altivamente que o lamento do presidenciável somente, não muda o estado das coisas, das questões relacionadas a população negra, das mulheres negras no país que ele pretende liderar caso seja eleito.

Sem apito final, as identidades seguem sempre em jogo, em plena disputa.  Ainda mais neste ano de grandes levantes nas ruas contra a violência policial sobre o povo negro e demais indigências as minorias não só nos EUA, mas em todo os lugares em que uma extrema direita subiu ao poder e com ela, ideias e práticas de uma universalidade política que rejeita e quer eliminar a diferença na diversidade.

¹O trauma de Anita Hill entra na disputa de Joe Biden pela Casa Branca brasil.elpais.com/brasil/2019/04/27/internacional/1556383347_069844.html.

Dhiogo Rezende Gomes é professor do Instituto Federal do Maranhão, mestre em História e doutorando em Antropologia Social.

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