
*Por Danilo Barbosa Santana
Em uma sexta-feira solitária e incomum, o vigia daquele lugar que antes era o responsável por oferecer segurança aos pequeninos, já não precisa mais estar tão atento como de costume, e sua única função é vigiar a si mesmo naquele prédio sem vida e sem rabiscos.
Há mais de nove meses, aquele lugar não ouve mais o barulho ensurdecedor das crianças, os choros estridentes dos menores e o sonido dos gritos das tias em cada corredor do pátio. Não fosse o perigo devastador que o vírus causou em toda a humanidade, certamente eles estariam ali para brincar, pintar, perguntar e fazer tudo o que fosse possível para matar sua curiosidade.
Mesmo após ter passado tanto tempo, muitos deles ainda acordam bem cedinho para perguntar aos seus pais se hoje será o dia de ir para a escola, e o fazem assim, como se tivessem estado lá ontem. Apesar desses inocentes navegadores do mar da imaginação não possuírem uma correta noção do tempo, o que eles querem realmente é reencontrar os seus colegas e abraçá-los como se fossem seus irmãos.
Naquela sexta-feira solitária e incomum, o vigia não precisou acionar o sino de alerta para que o portão fosse aberto e todas aquelas crianças soubessem que já era hora de entrar para suas salas. O parquinho de diversões, que antes era um dos lugares favoritos de todos os alunos daquela escola primária, agora agoniza em ferrugens, e não sabe mais o que é ver os seus brinquedos sendo ocupados pelos alegres e incansáveis rebentos.
Ao sabor dos ventos silenciosos e hostis, o vigia percorre toda a extensão daquela unidade escolar, e mesmo sem saber o dia do retorno dos destemidos desbravadores do conhecimento, ele conserta os bancos quebrados, molha o gramado para que fique verde, recolhe o lixo da areia e em um singelo olhar de saudade, visualiza cada criança a sentar-se no balanço de couro.
Naquela sexta feira solitária e incomum, o vigia tem como sua única companhia, aquele banco de madeira grande e inabitável. Ali, ele recebia os pais aflitos ao deixar os seus filhos naquele lugar pela primeira vez. Ali, ele era psicólogo, economista, médico e estava sempre disposto a ter uma boa conversa com quem quer que fosse.
Sem o público infanto que preenchia os espaços da escola, resta apenas guardar na lembrança o rosto de cada serumaninho alegrando-se nas cantigas de roda, nas brincadeiras de pega-pega, pique-esconde, marcha soldado, cabo de guerra e outras peripécias que sempre os deixavam com algumas marcas de joelho ralado.
Naquela sexta feira solitária e incomum, o vigia que há muito tempo é dominado pelo tédio, balança as suas chaves em movimentos circulares recostado sobre as grades do portão de entrada. Talvez ali, ele se sinta mais próximo do seu ofício, até que tudo volte a ser como antes.
Danilo Barbosa Santana é estudante de História. Começou a escrever poemas aos 10 anos de idade e recentemente ingressou no mundo das crônicas sociais. Em 2015, foi o vencedor da categoria Poema do I Festival Artístico Estudantil do IFTO. Atualmente desenvolve um trabalho de declamações poéticas em seu canal do YouTube intitulado Língua, Literatura e Poesia.