Voz do Bico

A troca de máscaras e o fetiche da renovação

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Dr. Fabio Alcântara. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Fábio de Alcântara

Em cada ciclo eleitoral, a república parece fascinar-se por uma espécie de reinvenção constante do seu próprio teatro. A cada quatro anos, multidões são mobilizadas pela crença quase religiosa na virtude do “novo”, do “fresco”, do “renovador”, daquele personagem que surge, de repente, como antídoto supremo para a fadiga que o próprio sistema político exala.

O “novo nome” é, na tradição nacional, a miragem mais rentável do mercado eleitoral. Enquanto o espetáculo se desenrola, não são poucas as vozes, antes indignadas ou descrentes, agora apaziguadas por palavras modernas, promessas de ruptura e gestos supostamente espontâneos transmitidos ao vivo em todas as plataformas digitais. O verniz da autenticidade, calculado nos bastidores do marketing, converte carreiristas em outsiders e fazedores de cena em legítimos “representantes do povo”.

Às vésperas das eleições de 2026, este cenário se repete com uma intensidade ainda mais teatral. Já se anunciam, nos corredores do poder e nas timelines das redes sociais, figuras que até ontem ninguém sabia nomear. São os rostos reluzentes, sustentados por slogans forjados e uma infinidade de vídeos editados. Invadem a opinião pública com discursos embalados em indignação pronta para consumo, mas logo evidenciam que o suposto ineditismo não passa de um verniz aplicado sobre métodos ancestrais de manipulação.

Na busca ansiosa pela renovação, o eleitor se deixa encantar pelo excêntrico, pelo estiloso e pelo midiático. O “novo político” não mais surge de uma militância genuína, mas de estratégias cuidadosamente orquestradas, alimentadas por seguidores pagos, matérias encomendadas e polêmicas teleguiadas para viralizar. Uma sucessão de postagens e manifestações públicas vazias de substância, mas plenas de compartilhamentos e
“engajamento”.

Nada se perde, tudo se recicla, inclusive as ilusões. A cada ciclo, personagens diferentes se agrupam sob as mesmas fórmulas, repetindo com outros maneirismos os gestos ensaiados de todas as eleições passadas.

Quais são, afinal, os verdadeiros “novos nomes” que se apresentam à sociedade? São mensageiros portadores de ideias próprias ou apenas intérpretes de velhos scripts, agora digitalizados e temperados com memes e polêmicas artificiais? Serão estes candidatos que se expõem ao ridículo em busca de curtidas, mas camuflam, com igual zelo, as manobras desonestas tão antigas quanto o sistema que pretendem criticar?

Quantos ainda se deixarão enganar pela pirotecnia das redes sociais, pela fachada de autenticidade onde só existe encenação? Faremos das eleições de 2026 outro festival de aplausos para personagens que, tão logo cai o pano, mostram-se tão previsíveis e obsoletos quanto as promessas que juraram romper?

Seremos, novamente, plateia de um teatro onde a renovação não passa do revezamentodas mesmas máscaras? Quem, entre os supostos novatos, será verdadeiramente novo — e quantos serão apenas a reinvenção cínica do mesmo e velho espetáculo político brasileiro?

Fábio de Alcântara, advogado

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