
*Por Fábio de Alcântara
A filosofia clássica, especialmente aquela desenvolvida por Sócrates, Platão e Aristóteles, e posteriormente reafirmada pela doutrina cristã da Escolástica, particularmente por São Tomás de Aquino, concebeu a verdade como algo objetivo.
Segundo essa visão, a verdade não depende do pensamento do sujeito conhecedor; ela possui uma essência própria, independente das opiniões individuais. Essa corrente de pensamento, sem sombra de dúvidas, coaduna com os ensinamentos de toda a doutrina cristã e é basicamente afirmada pelos ensinamentos do próprio Cristo. No entanto, atualmente, estamos imersos em uma filosofia contemporânea que se afasta radicalmente dessas raízes. Não mais fundamentada no relativismo sofístico, mas no relativismo kantiano, o discurso predominante, até mesmo no âmbito popular, passou a gravitar em torno de uma ótica autoritária. Retirou-se o centro das concepções da objetividade e passou-se a um relativismo incomensurável, onde a verdade se tornou uma questão de perspectiva individual. Esse deslocamento tem consequências profundas e preocupantes.
O relativismo contemporâneo, ao colocar o ego de cada um no centro do discurso, tornou qualquer interlocutor que discordasse em um verdadeiro nazista ou fascista. Basta não se concordar com a ideia de alguém que, calcado no relativismo, acusa o outro de autoritário e de outras coisas ignóbeis. É uma concentração do discurso no ego de cada um, de modo que se torna impossível discutir algo nos dias hodiernos. A troca de ideias, que deveria ser um exercício de busca pela verdade, se transforma em um campo minado de acusações e intolerância.
Essa situação está cada vez mais evidenciada nos discursos da esquerda, que são os grandes defensores das ideias relativistas predominantes nos discursos atuais. Reflexo disso, vimos no último pronunciamento do presidente deste país, Lula, que acusou aqueles que não compartilham de suas ideias de nazistas e fascistas. É a cultura do “nós contra eles”, uma retórica perigosa que divide a sociedade e impede o diálogo construtivo.
O problema se agrava quando consideramos o impacto dessa mentalidade no cenário internacional. O Brasil, cada vez mais, se enquadra numa situação de pária perante outras nações. A eleição de Donald Trump nos EUA, por exemplo, trouxe à tona uma série de realinhamentos geopolíticos que evidenciam ainda mais a fragilidade da posição brasileira. Enquanto outros países buscam fortalecer suas posições com base em princípios claros e objetivos, o Brasil se perde em um mar de relativismos e divisões internas.
A verdade, na concepção clássica, é algo que transcende o indivíduo e se conecta a uma realidade maior. É um ponto de referência que permite a construção de sociedades justas e ordenadas. O relativismo contemporâneo, ao fragmentar essa noção, cria um cenário onde qualquer posição é válida desde que seja defendida com veemência. Isso resulta em uma sociedade fragmentada, onde o diálogo é substituído por monólogos paralelos e a busca pela verdade é abandonada em favor de uma guerra constante de narrativas.
É essencial que retomemos a busca pela verdade objetiva, que voltemos a valorizar as discussões fundamentadas em princípios sólidos e universais. A filosofia clássica e a doutrina cristã nos oferecem um caminho claro para isso. Precisamos relembrar que a verdade não é uma questão de opinião, mas de descoberta e reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nós. Somente assim poderemos superar as divisões e construir uma sociedade mais justa e coesa.
Em suma, a situação atual do Brasil, marcada por um relativismo exacerbado e uma retórica divisiva, é um reflexo de um afastamento perigoso dos princípios que fundamentam uma sociedade saudável. A verdade deve ser resgatada como um valor central, e o diálogo deve ser promovido como um meio de construção coletiva, não de destruição mútua. O futuro do país depende de nossa capacidade de reconhecer e corrigir esse desvio, retomando o caminho da objetividade e da busca sincera pela verdade.
Fábio de Alcântara, advogado
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