Voz do Bico

A violência escolar de cada dia

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Paulo Martins, professor e escritor. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Paulo Martins

Um policial adentra a sala de aula. Ele caminha em direção a um estudante que está no fundo, junto à parede. O PM olha para o aluno e diz:

– Vai na boa ou vai na força?

– Cê vai botar a mão em mim? – o aluno pergunta.

– Vou – responde o PM.

– Sou de menor, pai. Num vô sair, não.

O policial arrasta o adolescente para fora da sala. Uma outra aluna se levanta e grita:

– Tira as mãos dele! Ele é de menor!

Essa cena ocorreu recentemente na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG) e retrata bem a realidade brasileira: a violência cotidiana dentro das instituições educacionais.

A polícia foi acionada pela direção da escola, após o estudante – suspenso em razão de ameaças – recusar o pedido da professora para deixar a sala de aula.

Qual é a sua opinião? A polícia deve atuar dentro das escolas?

Comigo, aconteceu algo semelhante. Enquanto os alunos realizavam uma atividade, fui até a sala dos professores buscar a lista de chamada. Ao retornar, havia três policiais dentro da minha sala de aula. Um deles segurava um dos alunos pelo braço e o retirava da sala.

Mais tarde, fui informado de que, a pedido da diretora, os policiais entraram para falar sobre violência. Um dos estudantes se levantou, e o policial pediu que ele se sentasse. O aluno não apenas desobedeceu, como também afrontou o agente. Foi essa situação que gerou a confusão.

A segurança pública nas escolas é um tema relevante. Ouço, muitas vezes, de autoridades da educação que a escola deve evitar a presença policial. Defendem que essa intervenção compromete os princípios educativos, baseados no diálogo, na empatia e na resolução pacífica de conflitos.

Durante anos, essa também foi a minha opinião. Eu era veementemente contra a presença da polícia nas escolas. Para mim, as instituições localizadas em regiões socialmente vulneráveis seriam as mais policiadas, o que reforçaria a desigualdade social e o estigma de que essas comunidades são “perigosas”.

Hoje, depois de quase vinte anos de experiência em sala de aula, penso o contrário. Não lutar por metodologias que garantam disciplina e organização inviabiliza o papel civilizatório e social da educação na construção de uma sociedade justa.

Saviani, professor, filósofo e pedagogo brasileiro, aponta a disciplina como um dos elementos fundamentais da convivência escolar e da construção do respeito mútuo. Sem ela, não há diálogo; não há aprendizado.

Defendo a disciplina, não a arbitrariedade – isso precisa ficar claro. Os dois casos citados no início não configuram, em hipótese alguma, abuso de poder. Existe uma falsa narrativa, no país, de que menores são livres para cometer atos infracionais impunemente.

A legislação brasileira determina que a apreensão de menores, quando necessária, deve ocorrer e ser imediatamente comunicada à autoridade judiciária e aos pais ou responsáveis.

Se “a escola pública tem o dever de romper com a reprodução das desigualdades” – como afirma Florestan Fernandes –, cabe à Secretaria da Educação rever seus conceitos sobre segurança escolar e garantir, a nós, educadores, meios seguros para que possamos desenvolver um trabalho de qualidade.

Paulo Martins é professor, escritor, mestre em Letras, autor dos livros “Cemitério das bonecas e outros contos (2022)” e “Vamos conversar: crônicas” (2017). @profpaulo_martins

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