
*Por Angelo Cavalcante
—————————————————
Em memória e lembrança de todos os que foram humilhados, presos, torturados, mortos e desaparecidos no Tocantins/Araguaia.
—————————————————
Desde o “day after” às quebradeiras do núcleo físico do poder institucional do país, em Brasília, há um brado, um clamor nas ruas, calçadas e eventos políticos democráticos da nação: ANISTIA NÃO!
Em verdade, faz todo e completo sentido!
De forma bem panorâmica, basta fazer breve pesquisa e levantamento sobre o que fora o último “anistião” para assassinos, torturadores, aproveitadores e ladrões fardados (ou não!) da “golpada” “meia quatro”.
Enquanto o regime caminhava trôpego e decadente para seu inevitável fim; menos, bem menos, pelo interesse de seus devotados fiadores e integrantes e bem mais por uma conjuntura política e econômica global e que arrastava, que atropelava o periférico Brasil, carniceiros do Estado, sempre vorazes e insaciáveis, se aproveitavam da carne fresca e saudável de jovens brasileiros.
A tortura… A tortura corria solta, plena, vigorosa e absolutamente indiscriminada! Aliás, de longe, era a principal e mais incisiva política de segurança da ditadura de 1964.
Fato é que já são bem revelados e conhecidos os casos de, por exemplo, da garota Miriam Leitão e que presa, fora despida e lançada em um cubículo com serpentes.
A militante Amelinha e que depois de horas afundada em intermináveis sessões de tortura é, aos frangalhos e em farrapos, apresentada aos próprios filhos; crianças e que não passavam de sete pueris anos.
O respeitado jornalista Vladimir Herzog, funcionário da TV Cultura (SP) e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) fora “convidado” a prestar esclarecimentos sobre “rumores” acerca do seu ofício profissional.
Nos calabouços da repressão, o professor Herzog fora submetido a brutal sevicia envolvendo choques, estrangulamentos e espancamentos de toda sorte; um tal “telefone” nos ouvidos, além do clássico e insuportável “pau-de-arara”.
Ao fim das insuportáveis torturas, Herzog morre. Torturadores e agentes de segurança – reparem mesmo – até tentaram forjar um quadro de absoluta fraude visando, é claro, manipular a opinião pública a fim de fazê-la crer de que o muito produtivo e apaixonado pela vida, “Vlado” Herzog, havia mesmo se matado nas apodrecidas celas do DOI-CODI, nas instalações e prédios do II Exército em São Paulo.
O “modus” de ação do abominável Brilhante Ustra é desses feitos que ocupa o pincaro, o mais elevado destaque dentre as perversões e maldades e que o ser humano é capaz de realizar contra seu semelhante.
O ódio e a desumanidade dessa besta humana se equivale, se equipara, por exemplo, a feitos e que colonizadores europeus conduziram contra indígenas do “Novo Mundo”; com as ignomínias que belgas, sob Leopoldo II, enredaram contra congoleses ou; com o que nazistas fanáticos perpetraram contra judeus nos campos de morte da Alemanha.
Sob Ustra… Corpos foram virados ao avesso; grávidas foram estupradas com ferros e barras em brasa; ratos foram socados e entupidos nos orifícios femininos e o inferno fora feito matéria, coisa concreta diante da população brasileira e de seu incerto futuro.
No extremo norte goiano, na Pré-Amazônia da vasta Região do Bico do Papagaio, nos entremeios dos rios Tocantins e Araguaia, soldados “verde-oliva” conduziram matanças sistematizadas de camponeses, caboclos e indígenas.
Mulheres e crianças foram violadas e abusadas e centenas de trabalhadores rurais foram encerrados em campos de concentração nas selvas goianas ou nas matas densas do sul do Pará.
Daí em diante foi sangue, suor e muito… Muito sofrimento!
Ainda hoje, centenas de corpos seguem, permanecem desaparecidos, com localizações absolutamente incertas e o Exército Brasileiro (EB), o “triunfante” Exército de Caxias, se mostra, se revela absolutamente incapaz e mesmo indisposto para, de fato, explicar sua vergonhosa e absolutamente desastrosa operação e que, ao fim e ao cabo, buscava, digamos, nos defender, nos proteger de “comunistas terríveis”.
Pois sim…
…Conseguem crer, imaginar que esse mundo indescritivelmente pantagruelesco fora, todo ele, liberado, consentido e, é claro, anistiado?
Pois nenhum, mas NENHUM, desses criminosos, desses monstros sofreu qualquer reprimenda, processo ou minuto vago e breve de cadeia pela saraivada, pela galáxia de crimes cometidos contra a população e a vida brasileira.
É de lascar!
Estive, na companhia de alguns amigos de Itumbiara, no último dia 09/01, em concorrido evento pela democracia em Goiânia. A concentração se deu na Praça Universitária; pude ver, testemunhar muitos garotos e garotas gritando por democracia, por respeito às leis e por justiça.
Que belo, que necessário, que acertado! Mas, em meio àquela catarse política, nada me pareceu tão adequado e pertinente do que o histórico, profundo e plenamente necessário e reparador: ANISTIA NÃO!
Vendo toda aquela massa, aquela militância renovada, alinhada e corajosa não pude não me emocionar… Estamos no caminho certo!
É bem isso…
ANISTIA NÃO!
Angelo Cavalcante é economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para vozdobico@uol.com.br.