Voz do Bico

Assassinnato Blumenau

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Foto: Fábio Almeida de Oliveira Adônes/Pixabay

*Por Sergio Alarcon

Eu não vejo coincidência alguma entre a explosão de atentados em escolas e creches – onde professores, jovens e crianças são massacrados -, e o espírito de ódio que impera no país desde o golpe de 2016.

E não se trata de um ódio difuso, sem rosto, indiscernível, aleatório. Muito menos de “polarização”.

Trata-se de ódio produzido como arma política para se atingir a um propósito claro: a conquista do poder e o saque do país.

Primeiro tentaram tornar inimigos públicos todos aqueles qualificados como de esquerda. Lembro do tempo em que não se podia sair na rua de camisa vermelha. Alguns foram xingados, desrespeitados, outros linchados, soube também dos que tomaram tiros e facadas… apenas por causa de uma peça de roupa vermelha.

Depois, o ódio foi se ampliando na medida em que, por sinédoque, passou-se a se entender o “vermelho “não mais apenas como a cor de um partido, ou de uma ideologia, mas como qualquer pessoa, ideia, filosofia, ato, instituição, empenhada na defesa da sociedade e da civilização (no sentido positivo da palavra).

Por fim acontece a tragédia: a eleição de um verme cuja narrativa externava seu desprezo aos homossexuais, às mulheres, aos negros, aos indígenas. Sua marca enaltecia o uso de armas – enaltecia a violência, a ignorância (em todos seus sentidos). E em um de seus vídeos (em comemoração pela vitória eleitoral), teve a audácia e o despudor de prometer a “ponta da praia” (o assassinato) aos opositores, e o extermínio das minorias (“as minorias têm que se adequar às maiorias, ou desaparecer” – JMB, 2017).

Chamo aqui a atenção para um detalhe: todas essas narrativas odientas foram acompanhadas fortemente pelo crescimento do Anti-intelectualismo e consequente desprezo e rancor contra a ciência e a cultura… por extensão contra as escolas, as universidades, os centros de pesquisa… Ou seja: contra a verdade.

Não à toa o guru da seita foi Olavo de Carvalho, um pilantra q não tinha a 4ª série do nível médio.

Também não à toa os bolsonaristas cansaram de se exibir invadindo universidades e escolas para assediar alunos e professores. Apenas como exemplo, cito os nomes de Daniel Silveira e Gabriel Monteiro (este, acusado de pedofilia). Mas se os dois citados foram processados e presos, muitos outros estão eleitos e atuando no congresso. Agora mesmo encharcam as redes sociais com fingido horror pelas mortes em Blumenau.

E last but not least, nunca esqueçamos da campanha contra cientistas, pesquisadores, professores, profissionais da saúde qualificados, que culminou na hecatombe que a resposta negacionista à pandemia produziu no país: quase um milhão de mortos por morte evitável.

Acho que não há dúvida: falar em ódio bolsonarista é grotesco pleonasmo. Não existe bolsonarismo sem ódio.

O assassino de Blumenau é bolsonarista – poderia ser petista ou tucano? Poderia. Mas ser bolsonarista não pode ser apenas um detalhe fortuito. Ser bolsonarista significa ter a subjetividade forjada para normalizar, naturalizar, e delirar que crimes como o cometido são heroicos e necessários (Esta também foi e é uma das funções das manifestações bolsonaristas repetidas ad infinitum contra uma mulher negra, lésbica, independente, nascida na favela e que foi à universidade para melhor lutar contra a ignomínia dos que propagam o ódio e que, no final, a mataram: Marielle Franco).

Contra essa herança maldita precisamos criar saídas o quanto antes.

O sangue das crianças de Blumenau não pede vingança – isso seria tratar por causa o efeito, e é esse tipo de reação que os bolsonaristas desejam – ele clama, isso sim, pela desbolsonarização do país.

O quanto antes!

Sergio Alarcon

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