Boulos e o PSOL: a sobrevida do lulismo?

terça-feira, 13 de março de 2018 às 08:45
Seria o PSOL o novo puxadinho do lulismo? – Foto: Divulgação

*Por Rafael Augusto Gomes

Praticamente todas as recentes (e mais importantes) polêmicas que envolveram a esquerda nos últimos tempos também envolveram Lula. Nada anormal ou inesperado. Apesar de não considerar que o PT governou o executivo nacional com uma plataforma de esquerda, compreendo que seus eleitores e grande parte da militância vejam o partido de outra forma, mas não discutirei isso aqui, por agora. O que mais me preocupa é ver como todas as alternativas construídas pela esquerda são, sem exceções, legitimadas ou surrupiadas a partir de sua relação com Lula, o “patrono de tudo” no espectro político habitado por quem vos fala.

Obviamente, apesar de crítico, admito que Lula é um personagem histórico importantíssimo — não há como negar. Desde 2002, todas as forças políticas brasileiras se organizam em relação à sua figura, aprovando-a ou não. Esse fenômeno se acentuou nos últimos tempos e produziu mais justificativas passionais do que argumentos racionais baseados em cálculo político. Mas, para além dos debates em torno de Lula, o que vejo como natural, o que mais me chama a atenção é a posição que “Ele”, com a ajuda de seus apoiadores, conseguiu consolidar como sua PROPRIEDADE dentro da esquerda brasileira: a de Guru. Analisemos isso, por exemplo, a partir da oficialização da pré-candidatura de Guilherme Boulos à presidência pelo PSOL.

Apesar de admirar trajetória da militância do notável Guilherme Boulos, tenho algumas reticências em relação à sua escalada à presidência. Oponho-me a ela tanto em relação às práticas políticas que envolve e vem demonstrando quanto em relação ao tipo de projeto que pode representar. Destaca-se, em relação à primeira pauta, a forma como a chapa Boulos/Guajajara foi construída. A conferência eleitoral do PSOL que os oficializou como candidatos do partido foi realizada sem nenhum debate prévio entre os possíveis candidatos e, para surpresa de muitos, sem delegados eleitos. Várias pessoas, sejam elas filiadas à legenda ou apenas figuras mais próximas do partido, vêm replicando o mesmo (pelo que posso perceber nas redes sociais): apesar da maioria do PSOL (70%) ter optado por Boulos, isso foi feito ao custo da supressão do debate político e da composição de um projeto partidário.

Muitos são os amigos — que respeito — que contestam essa oposição à candidatura de Boulos por parte de setores do PSOL. A narrativa básica desse grupo é a seguinte: se a imensa maioria do partido quer Boulos, então houve consenso e um processo democrático. Particularmente, não vejo dessa forma. Em minha opinião o “tratoramento” do processo democrático no PSOL enfraquece o partido e personifica a candidatura em torno de um líder carismático sem teto e uma militante indígena. Esse simbolismo da candidatura “vencedora” é interessante e forte do ponto de vista político nas esquerdas, mas, da forma como foi composta, ela me parece muito mais o enfraquecimento do partido e dos seus ideais do que o contrário. Independente do resultado das eleições, penso que Boulos sairá do processo mais forte que o próprio PSOL.

Em relação à minha segunda ressalva a esta candidatura (que se dá no campo de seu projeto), destaco o fato de que Boulos, em suas recentes aparições, posiciona-se como o candidato da resistência. Sim, isso é totalmente louvável, corajoso e importante — não quero dizer o contrário. Mas, num momento em que ocorre um profundo e dissipado reordenamento das forças políticas como é o atual, tem mais chances de largar na frente quem propõe primeiro. Entendo que ainda estamos no início da corrida e que ainda haverá muito debate pela frente, mas “apenas” reagir, mesmo no atual momento, limita o alcance dessa candidatura, circunscrevendo-a à bolha.

Para agravar o quadro, Boulos é personagem frequente no quintal do Lulismo. Desde as jornadas de junho-julho de 2013-2014 — que a esquerda insiste em não buscar compreender — seu posicionamento vem confirmando isso. Podemos relembrar o episódio no qual aprovou a repressão de manifestantes que buscavam melhores serviços públicos durante o período — ironicamente ele mesmo seria vítima da mesma intransigência em janeiro de 2017, quando foi preso arbitrariamente –, o fato de ter incentivado o MTST a participar em atos em prol da defesa de Lula, os seus feitos junto ao Guru em vários palanques Brasil afora ou a aprovação de Lula à sua candidatura num evento do PSOL (do PSOL!). Enfim, Boulos flerta há muito com o Lulismo e não faz questão nenhuma de esconder isso, até porque “defender Lula é defender a Democracia” (sic).

Considerando sua proximidade com o Guru e o fato de não apresentar claramente a que veio, Boulos sinaliza para a mesma direção que Lula: no discurso, pretende se opor aos tempos (realmente) difíceis que vivemos, mas não mostra exatamente como fará isso, não critica os limites do pacto de governabilidade lulista e não propõe a sua superação. Ou seja, apresenta uma candidatura vazia de programa e que tende a reproduzir a cultura política vigente, suas tradicionais alianças e os limites que estas implicam dentro da democracia burguesa. As escolhas iniciais dos interlocutores do candidato, por exemplo, elucidam bastante essa direção: debate-se com Bolsonaro e seus espantalhos com o objetivo de justificar a si mesmo como antítese do fascismo e como síntese da Democracia, sem, no entanto, propor soluções muito claras à população sobre como superar a crise e enfrentar os desafios sociais brasileiros.

Se isso é uma estratégia para demarcar território entre a esquerda (e dentro da bolha), só descobriremos nos próximos capítulos. Mas me parece que Boulos e o PSOL já tem um destino selado em 2018. Ao candidato, estaria reservado um papel de grande importância na esquerda brasileira. Boulos é, de fato, um sujeito bem preparado com o potencial necessário para inflamar as massas. Nesse sentido, poderia crescer exponencialmente como figura pública nacional no âmbito das esquerdas, ocupando, quiçá, o lugar de Lula num futuro bem próximo. Mas, por outro lado (ou pelo mesmo lado…), o líder do MTST tem todos os pré-requisitos necessários para confirmar sua candidatura e o próprio PSOL não como linha auxiliar do PT, mas sim como linha auxiliar do Lulismo. E é isso que está em jogo!

Ao apostar na candidatura de alguém que até ontem não era sequer filiado ao partido, ao atropelar o processo natural e necessário na composição de uma pré-candidatura, ao restringir o debate de ideias dentro da própria legenda, o PSOL é quem mais tem a perder com todo esse processo. Boulos pode ser a ponta de lança lulista dentro do PSOL, aquilo que daria sobrevida ao já moribundo lulismo. Com um PT fraco e dilacerado e com Lula fora do páreo, pode ser Boulos o representante daquilo que o Capital quer: uma reedição do Lulinha conciliador, paz e amor. Sim, meus caros, o lulismo pode (e deve) sobreviver sem o PT.

Nesse ambiente, é muito triste constatar que o PSOL, partido que se apresentava como substituto do PT, será o possível responsável pela manutenção do lulismo. A julgar pelo contexto da crise do sistema representativo ocidental, no qual os partidos estão cada vez mais desacreditados, isso se agrava ainda mais. A democracia moderna, tal como foi concebida a partir do século XVIII, precisa dos hoje caducos e desacreditados partidos para funcionar. Em tempo de populistas e demagogos a decisão do PSOL por Boulos, liderança muito mais ligada ao lulismo do que ao próprio PSOL, reforça isso: o enfraquecimento do partido.

A longo prazo, acabaremos por deixar as grandes decisões da vida pública nas mãos dos tecnocratas do capital corporativo. Eles, que se apresentam como “gestores” e que vem vencendo inúmeras eleições exatamente por isso, serão abençoados pelo Deus do livre mercado e terão a capacidade de interferir nos rumos da política. A esquerda marxista e/ou não lulista precisa apresentar projetos que aprofundem a democracia, sustentem a soberania de nosso povo e caminhem rumo à transformação da cultura política vigente. É hora de marcar posição e de propor. Nesse sentido, tendo a defender a candidatura de Ciro Gomes (apesar das críticas que também fiz a esse candidato).

Rafael Augusto Gomes, professor de história e historiador

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