Voz do Bico

Camarada Caiado

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Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Angelo Cavalcante

Sem sombra de dúvidas, essa é a mais atípica e inusitada eleição presidencial desde a redemocratização.

Incompreensível, confusa e arriscada junta e ajunta interesses opostos; articula, perfila aberta ou subliminarmente adversários e oponentes históricos; não raro, a energia e a potência eleitoral deste beneficia e mobiliza a impensável candidatura daquele e assim e por assim vai.

Quero dizer que um processo eleitoral é meio como um imenso, um largo liquidificador e que irá sintetizar tudo o que está em seu interior em uma única substância e com única e determinante cor; talvez a cor a prevalecer surja, desponte mais pálida, mais fraca, menos intensa, contudo, e ainda assim será uma… Cor . Quem sabe mais esverdeada, alaranjada, amarelada, azulada ou avermelhada… Certo é que uma cor, nesta ou naquela tonalidade, virá, surgirá.

Tomemos o exemplo de Ronaldo Caiado , ex-deputado federal, ex-senador, ex-governador e presidenciável com baixa ou muito baixa adesão nacional.

Desnecessário tratar do arcaismo, da corrente ou linha política e ideológica em que o senhor Caiado se alinha e se conduz. Herdeiro das mais antigas e duras tradições políticas de Goiás, Caiado é filho dileto e direto da oligarquia e que mais bebeu e sorveu no latifúndio, no privilégio, no escravismo e na apropriação direta do Estado e da esfera pública. Aliás, a definição política do que Goiás, de fato, é contemporaneamente… Perpassa pelo protagonismo e pela ação da oligarquia dos Caiado.

Trocando em miúdos, o essencial do nosso atraso enquanto civilização foi concebido, dinamizado e articulado pelo cavernoso clã Caiado.

Pois bem… Em que pese todo esse latente e destacado histórico de aberta oposição a tudo o que é moderno, a política desenvolvida nesse específico pleito por Ronaldo Caiado, em última ratio , beneficia sobremaneira, a reeleição de Lula da Silva .

Vejamos…

A política tal qual tudo nessa vida, não se faz como se quer, não é desenvolvida ou acionada da forma única e exclusiva e que o indivíduo, do alto de sua vontade pessoal, assim define; política como estrita expressão do mundo, da vida social e comum, aliás, desde a Grécia Antiga o standart filosófico que determina o homem é justamente a máxima do “animal político” como ente constitutiva e organicamente coletivo e público ou, em definitivo, não existe.

Não estou exagerando… Esse mundo social, o ser social e que nos define está em nós como as células e que determinam nossos órgãos e tecidos, como o sangue que corre mas nossas veias, como o batimento síncrono e sensível do nosso coração.

E isso não é um comparativo, uma metáfora! É CONDIÇÃO ! Não existimos e não temos a menor – A MENOR! – condição de existência sem o mundo social, sem a vida gregaria e coletiva.

Dito isso… Caiado sequer pensou nas consequências de sua candidatura, não fez mediação, não ponderou acerca do quadro vigente, as ululantes relações e a complexidade de todo esse cenário. O resultado do estupor, da pulsão caiadista em primeiro momento foi o “racha” dos votos e que iriam para Flávio Bolsonaro.

É fácil conferir… Aqui onde vivo, Itumbiara, cidade reacionária, de direita e politicamente atrasada, praticamente não se vê uma caminhonete com o adesivo ou plotter de Flávio tampouco com o semblante cinicamente risonho de Ronaldo Caiado.

Nem um e nem outro…

No pleito de 2022, nossas ruas e avenidas estavam entupidas de um zumbizaço humano com flâmulas e bandeiras do criminoso Jair Bolsonaro. Não havia caminhonete ou “carrão de bacana” e que não estivesse devidamente com colagens pró-Bozo.

Caiado arruinou a candidatura de Flavinho! Secou, mirrou e esvaziou as intenções e alguma unidade de direita em favor do candidato neo-fascista.

Na dúvida é só conferir nossa paisagem política; por sinal, alguns colegas de Iporá, Morrinhos, Jataí, Anápolis e Caldas Novas me contam e me asseveram do mesmo fenômeno político.

Por fim… Nada no mundo é mais delicado e sensível do que o fazer político; não havendo cuidado, sensibilidade e observância o adversário vira parceiro, o aliado se converte em concorrente e a intenção não sai de sua condição de mera e longínqua intenção, logo… O oposto ativo e objetivo da ação política concreta.

Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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