Voz do Bico

Capitu e o fim do ciclo de abusos

163
Paulo Martins, professor e escritor. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Paulo Martins

Para ela, a indiferença não doía menos do que um tapa. Não havia mais diálogos. Ele ficava isolado, sempre a evitava. Naquele dia, como se não bastassem as humilhações a que a submetia, acusou-a de infidelidade.

Ela se sentiu medíocre, sentiu vergonha. Pediu-lhe explicações, provas do que acabara de dizer. Ele simplesmente afirmou que não tinha nada a falar, que ela sabia muito bem de tudo. Ela olhou para ele, com firmeza:

— Peço a nossa separação. Não posso mais.

Ele permaneceu calado. Provavelmente, ela falou por falar, por estresse — pensou ele.

Ela, já com roupa de domingo, segurou o filho pelas mãos e foi à missa, à procura de um alento que a confortasse diante daqueles dias tenebrosos.

Ele continuou sentado onde estava, atrás de uma mesa, com sua frieza fúnebre, olhando para uma xícara de café morno. Pouco mais tarde, ela voltou. Reafirmou o que dissera horas antes:

— Nossa separação é indispensável. Estou às suas ordens.

Precisavam manter as aparências de família perfeita. Com a desculpa de levarem o filho para estudar na Europa, viajaram. Por lá ela ficou e não mais voltou. Ele ficou só, envelheceu junto com a casa.

Esse foi o fim do relacionamento entre Bentinho e Capitu, namorados de infância, personagens de “Dom Casmurro”, obra de Machado de Assis.

Capitu fez o certo, foi heroica: preferiu pedir a separação a se consumir aos poucos em um relacionamento tóxico.

Contudo, diferentemente de Capitu, muitas mulheres permanecem em relacionamentos tóxicos por uma combinação de fatores emocionais, psicológicos, sociais e práticos — e isso não tem a ver com fraqueza.

Entre os motivos que prendem mulheres nesse tipo de relacionamento está o medo. Temor de ficar sozinha, de represálias, de perder os filhos, do julgamento social ou de não conseguir se sustentar financeiramente.

Há também a esperança de mudança. Relacionamentos tóxicos costumam alternar momentos ruins com fases boas. As fases positivas alimentam a esperança de que “vai melhorar”, tornando difícil o rompimento.

A dependência emocional e a baixa autoestima são outros fatores fortes para a permanência nos abusos. Com o tempo, a pessoa passa a acreditar que precisa do parceiro para se sentir valorizada ou segura. Críticas constantes, controle e manipulação fazem com que a mulher passe a achar que não merece algo melhor ou que a culpa é dela.

A normalização e as pressões sociais e culturais alimentam o ciclo de abusos. Se a pessoa cresceu vendo relações parecidas, pode achar que aquilo é “normal”. Ideias como “relacionamento exige sacrifício”, “é melhor aguentar do que ficar sozinha” ou estigmas sobre a separação pesam muito.

Ademais, o isolamento e a falta de informação ou apoio são outros agravantes. Parceiros tóxicos muitas vezes afastam a mulher de amigos e familiares, reduzindo o apoio externo e dificultando a saída. Nem sempre é fácil reconhecer que a relação é tóxica ou saber onde buscar ajuda segura.

Sair de um relacionamento tóxico, como fez Capitu, é um processo, não um evento único. Apoio emocional, informação e uma rede de confiança fazem muita diferença.

Paulo Martins é professor, escritor, doutorando em Letras pela UFT, autor dos livros “Cemitério das bonecas e outros contos (2022)” e “Vamos conversar: crônicas” (2017). @profpaulo_martins

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para vozdobico@uol.com.br

Sair da versão mobile