Voz do Bico

Concurso público – a Disneylândia dos sonhos materiais ou Vale do Silício das ilusões?

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Dr. Fabio Alcântara. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Fábio de Alcântara

Nos últimos trinta anos, o Brasil se transformou numa espécie de feudo moderno,com castelos de concurseiros e frotas de funcionários públicos navegando ao léu do “estabilidade a qualquer custo”. Não havia outdoor nem cartaz de propaganda explícito, mas pairava no ar – como aquele delicioso cheiro de comida do vizinho – a convicção: “Menino, estude para esse concurso, garanta seu futuro, e quem sabe você não coloca, de brinde, a moralidade e o país no bolso do colete?” Eis a promessa vendida em suaves parcelas aos jovens intoxicados pelo ideal materialista, os mesmos jovens que, embebidos de nostalgia soviética (muito embora não soubessem distinguir o Kremlin do Mercado Central), sonhavam com o Estado-Deus, senhor dos recursos, salvação dos infelizes e senhor absoluto das certezas.

Percebam: neste arranjo, a busca pela carreira pública se alicerçou em dois pilares inquebrantáveis – a estabilidade do cargo (quase uma aposentadoria na arrancada) e a
estabilidade financeira (“servidor recebe em dia, ‘meu filho’, pode confiar”). O resto era detalhe, inclusive aquela habilidade essencial chamada pensamento crítico. Para quê tal
capacidade, afinal, se o manual do concurseiro já prevê todas as respostas? O sujeito se faz especialista em preencher bolinhas ou redigir textos sem alma, decorrendo num fenômeno nacional: a produção em série dos “robôs autômatos” do Estado, treinados para replicar doutrinas sem nunca lhes interrogar o fundamento moral, ético ou social.
Eis onde reside a beleza sarcástica deste sistema. O jovem dedica anos para tornar-se,na melhor das hipóteses, funcionário de elite: juiz, promotor, delegado, auditor, defensor.
No topo da pirâmide. No entanto, longe de serem ícones de nobreza, muitos viram professores do “jeitinho institucionalizado”: aumentam vencimentos numa madrugada
silenciosa, sempre com aquela lógica tortuosa e, por vezes, reinterpretando a Constituição em benefício próprio. Tudo muito limpo, tudo muito formal, afinal, quem vai contradizer a palavra oficial do carimbo estatal? O funcionário público, especialmente o famoso “servidor de elite”, é quase um Dorian Gray: por fora, símbolo do poder e da autoridade; por dentro, um acúmulo de interesses privados, ressentimentos e (muitos) privilégios.

Mas, e quando o funcionário público foge ao script? Lembram daquele caso famoso na nossa região, onde determinado servidor de um órgão de persecução – recheado de certezas jurídicas e embriagado de autoridade – mobilizou o aparato estatal para uma cruzada pessoal contra um desafeto? Aquilo não é exceção; é quase rotina! Troque os nomes, troque as cidades, e terá o típico drama brasileiro do servidor que confunde função pública com palco de vaidades.

É nesse cenário que a internacionalidade começa a olhar para nós como quem assiste uma peça tragicômica: a democracia ali virou um conto da carochinha, protagonizado por
servidores públicos sob o disfarce de representantes do povo. A triste ironia? O bom servidor, esse sim vocacionado ao interesse público, invariavelmente é visto como o “coitado”, aquele que não sabe se virar, que está sempre encalacrado financeiramente – quase um Dom Quixote numa terra de Sanchos panças privilegiados.

É tempo, pois, de reinserir honestidade e autocrítica nessa equação. O sucesso por concurso público perdeu sua aura legítima, tornando-se, em muitos casos, sinônimo de
vitória pessoal sobre os outros e sobre o próprio país, e não resultado de serviço ético ao cidadão comum. Talvez seja justamente esse o principal parasita do nosso corpo estatal: o vício pelo poder, travestido de estabilidade.

E você, caro leitor, nunca topou com o juiz interiorano que faz do paço um tribunal de horrores para o “Zé ninguém”, mas trata o compadre com toda solenidade? Nunca
escutou falar daquele membro do Ministério Público que insuflou policiais apenas para amedrontar desafeto? Ou do policial, fiel escudeiro do político local, prestando indecorosos serviços à margem da lei? É, amigo, o Brasil é um laboratório de exemplos…
Enfim, não cabe aqui demonizar todo servidor público – claro que não! O país ainda sobrevive graças aos heróis silenciosos que resistem à tentação do oba-oba corporativo.
Mas é fato: o Brasil precisa rever seu fetiche pelo cargo público a qualquer preço. Talvez devêssemos olhar um pouco menos para o próprio umbigo e mais para a sociedade – e, cá entre nós, resgatar o velho e bom senso do serviço público como vocação e não como boia de salvação individual.

Que tal filosofar um pouco: quando foi que deixamos de sonhar um país melhor para sonhar apenas com um contra-cheque melhor?

Antes que algum apressado, tomado pelo espírito literal dos nossos autômatos modernos, resolva transformar opinião em dogma ou enxergar fantasmas onde só há sátira e crítica social, advirto: este texto limita-se à apreciação de casos escabrosos e absurdos, que entristecem nosso serviço público e alimentam a caricatura popular. Não se refere, sob qualquer hipótese, a esta ou aquela pessoa, tampouco pretende generalizar condutas a todos os servidores, muito menos tomá-los como iguais em seu grau de responsabilidade ou hierarquia. Assim, todo zelo crítico e interpretativo é bem-vindo – mas que os excessos de zelo autômato fiquem do lado de fora, por gentileza.

Fábio de Alcântara, advogado que já foi um pobre funcionário público concursado

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