Voz do Bico

De folião a advogado: meu primeiro caso

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José Fábio de Alcântara Silva (Fábio de Alcântara). – Foto: Arquivo pessoal

*Por Fábio de Alcântara

Era o início de 2003, recém-formado há pouco mais de três meses, com o registro da OAB em mãos, mas ainda sem sequer um escritório e, talvez, sem a intenção de ter um. Estava residindo em Palmas à época, porém passei o carnaval daquele ano em Augustinópolis. O que eu não sabia era que a última noite daquela festa mudaria os rumos da minha vida profissional de forma definitiva.

Na última noite de carnaval, madrugada para ser mais preciso, a praça Ary Valadão ainda com os últimos foliões. No palco, uma banda animava a multidão até que um incidente inesperado tomou conta do evento. Houve um desentendimento envolvendo os seguranças da banda e os foliões e, após uma confusão, aqueles foram acusados de tentativa de homicídio, em razão do disparo de arma de fogo. O tumulto foi grande, e os seguranças acabaram presos em flagrante. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade, trazendo uma reviravolta àquela noite de celebração.

Na manhã seguinte, fui abordado de forma inusitada por um empresário responsável pela anda. Ele estava preocupado em conseguir a liberdade dos seus funcionários, e algum conhecido lhe contou que eu era advogado. Até então, eu não tinha tido a oportunidade de atuar em um caso real desde que me inscrevi na OAB, e confesso que fiquei surpreso com o pedido. Sem estrutura alguma — nem escritório, nem experiência prática —, aceitei o desafio. Era uma situação urgente, e eu sabia que precisava agir rápido.

Com base no relato do empresário e nas informações a que tive acesso, comecei a fundamentar o pedido de liberdade provisória. O caso me exigiu atenção detalhada às circunstâncias: a conduta dos seguranças, as razões alegadas para a prisão e, principalmente, a avaliação sobre possíveis requisitos que autorizassem que respondessem ao processo em liberdade. Respirei fundo e preparei o pedido com todo o cuidado, ciente de que aquela poderia ser minha primeira grande oportunidade.

O pedido foi protocolado ainda naquele dia, e no mesmo ritmo a Justiça analisou a situação. O magistrado responsável teve sensibilidade em compreender os fatos e acolheu os argumentos que apresentei, determinando, no dia seguinte, a liberdade dos envolvidos.

Lembro-me da sensação de alívio e da felicidade de poder dar a boa notícia ao empresário
e aos seguranças. A gratidão por parte deles foi enorme, mas, para mim, além do resultado
positivo, o que ficou daquele dia foi a certeza de que estava na profissão certa.

Agora, quase 22 anos depois, olho para trás e percebo como aquele episódio foi marcante na minha trajetória. Não só marcou o início do meu exercício profissional como também me ensinou lições valiosas sobre o compromisso, a urgência da profissão e a responsabilidade de representar aqueles que depositam em nós sua confiança.
O carnaval de 2003, para muitos, foi apenas mais uma festa, mas, para mim, foi o início oficial de uma jornada que, hoje, é sinônimo de dedicação e realização profissional.
Tudo começou na praça Ary Valadão, no calor da folia, e, desde então, trilho este caminho com paixão, levando comigo a memória daquela noite que me introduziu à advocacia de maneira tão inesperada.

José Fábio de Alcântara Silva (Fábio de Alcântara)

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