
*Por Angelo Cavalcante
Estou no extremo norte do Tocantins; na dita região do Bico do Papagaio.
Tudo… Tudo isso era GOIÁS… As velhas e crônicas elites goianas se desfizeram desse imenso quinhão setentrional de terras como se lançassem cinzas ao vento. Só abriram mão…
Pois sim… Me encontro mais precisamente, em Augustinópolis, por aqui se diz também “Centro do Augusto”; é engraçado ouvir do típico habitante, nascido e vivido aqui chamar de “cenduaugusto”.
Bom… Essa cidade conta com cerca de dezoito mil habitantes que vivem de pequenos e ordinários negócios, d’alguma transferência externa como aposentadorias, pensões, “bolsa-família” ou dos ditos benefícios de prestação continuada, sem contar nos miúdos empregos da prefeitura e do comércio local, em seu essencial, composto de pequenas lojas.
O clima é um quente diferenciado; é muito e bastante úmido; quero dizer que por aqui quando você suar, transpirar, você, de fato, ficará todo molhado.
Não por menos… Isso aqui é a Amazônia Legal!
Bom…
Estou distante 1.300km de Goiânia; 70km de Imperatriz (MA) e; 160km de Marabá, no Pará.
Essa cidadela está, por assim dizer, no entremeio, na confluência entre os grandiosos e já bastante aviltados rios Tocantins e Araguaia.
Depois da metafísica da fé, da teologia, não raro escatológica, propugnada de forma escabrosa e histriônica por evangélicos de todos os formatos e nuanças, o latifúndio é a principal instituição desse lugar.
São imensos taboleiros de terras e completamente vazios; um gado miúdo aqui, outro tanto mais na frente; currais e cercados mais adiante e, no geral, pouca ou nenhuma cultura.
Nesses esvaziados espaciais uma gente distinta, diferenciada; é um tipo branco, de tez clara e olhos abrilhantados e que passeia em caminhonetes estilosas, rebuscadas e bastante caras.
São corpos “do sul” do país e absolutamente distintos dos costumeiros corpos do trabalho direto e produtivo dos pretos, dos caboclos, dos indígenas, nordestinos e miscigenados e que por aqui vivem.
Tudo está diferente… É impressionante!
Quando criança me recordo de ver as quase míticas “quebradeiras de coco babaçu”; elas sumiram. Essas mulheres, observem bem, se vestiam de andrajos; não eram roupas, eram farrapos e… Carregando cofos, jacas, machados e bordunas seguiam às roças de extração de babaçu; se assentavam ante a amontoados desse coco e, é claro, tratavam de abri-los a “mano”. Não existiam máquinas, tecnologias ou processadoras; tudo, absolutamente tudo, no “braço”.
Como se estivessem em um ritual medieval, se achegavam nos cocais e, em meio a cantorias e louvores, realizavam seus ofícios duros e impenitentes. Cantavam, cantavam muito… Louvavam a Deus, a Jesus Cristo e a Nossa Senhora.
Na prece cantada e cheia de lamúrias e culpas, abriam um, dois, dez, vinte cocos; retiravam cavacos e impurezas posto que a castanha devia estar limpa para ser entregue para algum atravessador.
Cada mulher, reparem bem, tirava de cinco a dez quilos dessa castanha e que o revendiam, repassavam para comerciantes locais por valores simbólicos e aviltantes; era, de verdade, uma cifra infame e que não chegava a vinte centavos de real por quilo de castanha de babaçu; quero dizer que por todo um fatigante e penoso dia de trabalho uma mulher como essa percebia mau e porcamente dois reais.
Eu vi isso!
Indaguei minha mãe sobre as “quebradeiras”; dona Bete, minha mãezinha linda, arrematou: sumiram!
Aos que não sabem, os palmeirais de babaçu ocupavam imensas áreas disso e que recentemente ficou chamado de MATOPIBA (MAranhão, TOcantins, PIauí e BAhia); essas palmeiras foram, no seu geral, dizimadas para dar lugar a infindas pastagens ou alguma monocultura modernosa.
Do babaçu se extraem quatro itens fundamentais. São eles: a própria casca do coco e que é excelente carvão vegetal; o mesocarpo ou o invólucro das castanhas e que, depois de amassado, moído e limpo vira espécie de massa para um mingau nutritivo e que é dado às crianças; as castanhas e que, após serem processadas, se convertem desde alimentos até cosméticos e, finalmente; um óleo rico que é extraído dessa mesma castanha e que, pelo menos, é feito, é convertido em graxa, lubrificante, bio-diesel ou matéria-prima para itens de beleza.
Os babaçuais sumiram! As quebradeiras, da mesma forma, desapareceram… E o sertão… O sertão virou um “mar de nada”; ficou chato, previsível, monótono, maçante, vazio de mistérios.
O latifúndio, é claro, gerou suas variações na economia, na política e no cotidiano e tudo mudou, na exceção das multidões de campesinos miseráveis, desamparados e que, aos milhares, ocupam os arrabaldes vis e rotos dos extremos periféricos de um Brasil profundo e em plena mutação.
Que triste!
Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
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