Voz do Bico

Herzog, PRESENTE!

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Foto: Arquivo pessoal

*Por Angelo Cavalcante

Vlado era Vladimir Herzog. Mas sem erro, seu nome batismal era mesmo “Vlado Herzog”.

Foi o próprio que identificou que “Vlado” não cairia bem em terras brasileiras, daí passou a se utilizar de Vladimir… Vladimir Herzog .

Não era brasileiro de nascimento.

Nasceu em 27 de junho de 1937, na província de Osijek, na Croácia, antiga Iugoslavia.

Osijek é das cidadelas croatas mais à leste; aliás, fica bem mais próxima da Hungria ou da Sérvia do que de Zagrebe, a bela capital croata.

Vlado e sua família se mudaram, em primeiro, para a Itália e, no alto da II Guerra Mundial, em 1942, partem para o Brasil.

Vladimir Herzog era sério, ainda assim era um sujeito bem humorado, com tiradas e piadas inteligentes; era portador de uma simpatia discreta, formal e tinha verdadeira fascinação pelo Brasil!

Essas paisagens únicas, essa gente multicolorida, esse ânimo e… Esse carnaval? Quanta beleza!

Jornalista de mão cheia, fazia de um “limão, uma limonada” imensa e tornava sua escrita, sua contistica, uma arte primorosa centrada no rigor científico, na singular capacidade de situar um fenômeno no espaço/tempo e com um tipo único de linguagem que oscilava harmonioso entre o simples, o objetivo e o poético.

Apaixonado por história, sabedor de antropologia e atento aos acontecimentos políticos, Herzog era judeu e que, não raro, fazia troças dos ritos, liturgias e excessos do judaísmo.

Era também, professor da Universidade de São Paulo (USP) onde possuía um vasto rol de amizades e que ia do pessoal da zeladoria, passando pelos sempre inquietos estudantes até ao cotidiano com colegas de trabalho.

Por sua capacidade técnica e de gestão fora nomeado, em 1975, diretor da TV Cultura por José Mindlin, secretário de cultura de então; por sinal, os atuais e prevalecentes princípios de TV pública, com compromisso e interesses efetivamente sociais e coletivos desta emissora, vieram do seu conceito, compromisso, ética profissional e da responsabilidade comum e comunitária desse imenso profissional para com o atributo essencial de realizar uma comunicação decente e que respeite o povo; por boa lembrança, bem diferente da bandalheira reacionária e que virou a imprensa brasileira.

Conhecedor da boa música, apreciador de bons vinhos e pessoa pública destacadamente charmosa e sempre muito bem vestida, Herzog, analista de mão cheia, tinha diversos amigos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), aliás, sendo, ele próprio, um conhecedor detido da obra de Karl Marx e Friedrich Engels, os “pais do socialismo científico”.

Pois sim…

Em 24 de outubro de 1975, governava o Estado de São Paulo, Paulo Egydio e Ernesto Geisel era o presidente-ditador do período; pois na noite desse triste dia, agentes da repressão militar bateram na porta de sua casa; o professor Vladimir Herzog os atendeu com respeito e educação.

Os policiais, frios e sumários, anunciaram que ele estava sendo convocado para depor nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), em São Paulo.

Herzog, sem maiores objeções, concordou e só pediu para pôr seus sapatos e apanhar o casaco.

Aí começa o suplício de Herzog!

Fora levado às dependências infernais do DOI/CODI e o que seria a coleta e o registro de um depoimento, se converteu em uma brutal e interminável sessão de torturas cujo desfecho será a própria morte de Herzog.

O jornalista, por horas, fora submetido a socos, pontapés, tapas e outras agressões. Teve o rosto espancado sistematicamente e finalmente, fora assassinado por estrangulamento, por asfixia.

A versão oficial e criminosa da época e revelada por militares foi um texto descabido, desconexo e improcedente de que Vlado teria se enforcado com o próprio cinto.

Como parte da farsa, milicos divulgaram uma foto trágica de um Herzog supostamente enforcado.

A mentira não durou uma manhã…

Não por menos, testemunhos de professores, estudantes, trabalhadores e jornalistas encarcerados nas mesmas masmorras do DOI/CODI, sem dúvida ou hesitação, berraram denunciando a fraude absurda onde, sem medo ou receio, afirmaram de que Herzog tinha sido mesmo, assassinado e de forma brutal, covarde e impiedosa.

“Mas todos ouvimos seus gritos de dor e sofrimento até que… Silenciou!”, afirmou um dos encarcerados.

É importante considerar ainda que, além disso, em 1978, o legista que “autopsiou” o cadáver de Herzog, o médico Harry Shibata, confirmou ter assinado seu laudo necroscópico sem jamais ter verificado ou examinado o corpo do jornalista.

Por fim, são completados cinquenta anos de um bárbaro assassinato e que precipitou o fim e a queda do assassino regime militar brasileiro.

Vlado Herzog deixou sua esposa Clarice e seus filhos Ivo e André!

HERZOG vive!

Angelo Cavalcante é Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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