Voz do Bico

In pace leones, in bello cervi

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Drº. Fábio de Alcântara. – Foto: Divulgação

*Por Fábio de Alcântara

A história do Brasil, como a de tantas outras nações, é marcada por ciclos de entusiasmo e decepção, de esperança e submissão. O povo brasileiro, em muitos momentos da nossa trajetória, demonstrou garra e energia quando o cenário era estável, mas, quando os ventos da mudança sopraram com força, recuou, temeroso, aceitando imposições vindas de cima. Daí a pertinência do ditado latino: In pace leones, in bello cervi — Na paz, leões; na guerra, cervos.

Tomemos como exemplo a Proclamação da República, em 1889. O Brasil era, até então, uma monarquia consolidada, com Dom Pedro II representando uma liderança estável e respeitada. No entanto, um pequeno grupo de militares e intelectuais, influenciado por ideais positivistas e maçônicos, decidiu que estava na hora de mudar o rumo do país. O povo? A grande maioria não desejava essa mudança, mas tampouco resistiu. O golpe foi consumado, e a República nasceu sob a indiferença e a passividade da
nação. Os leões que rugiam em tempos de tranquilidade mostraram-se cervos na hora do embate.

Décadas depois, Getúlio Vargas consolidou essa característica da nossa história.

Embriagado pela própria vontade de poder, dissolveu a frágil República Velha e instalou o Estado Novo em 1937. A ditadura varguista acabou por subverter os mitos fundadores da pátria. O Brasil, que se firmava em valores heroicos e grandiosos, viu-se reduzido ao binômio carnaval e futebol, num projeto político de anestesia coletiva. Mais uma vez, o povo brasileiro não pediu essa transição — e mais uma vez aceitou sem reagir.

E a história seguiu repetindo-se. Com o golpe militar de 1964, instaurou-se uma nova tirania, desta vez sob a justificativa de proteger o país do comunismo. Embora os
primeiros momentos tivessem contado com certo apoio popular, a repressão logo demonstrou sua face mais dura. O povo, acuado pelo medo, conformou-se. Os leões que
bradavam contra a instabilidade logo se encolheram ante o peso da bota militar.

E hoje? Assistimos a mais uma encenação desse roteiro. No palco da política nacional, surge um novo personagem vestido de toga, um autodeclarado herói da democracia, que promete resgatar valores, combater inimigos invisíveis, lutar por uma nação mais justa. Mas a reação popular revela um padrão já conhecido: a fagulha inicial até desperta emoção, mas quando chega a hora do verdadeiro enfrentamento, os cervos voltam a prevalecer sobre os leões.

O Brasil, ao longo de sua história, tem demonstrado essa estranha dualidade: brada com força quando nada está em risco, mas quando chega o momento de se posicionar, recua. A essência desse comportamento parece imutável, um ciclo que se repete indefinidamente. Resta saber quando — e se algum dia — esse povo há de se reconhecer, de fato, como o protagonista de sua própria história.

Fábio de Alcântara, advogado

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