Voz do Bico

Lula não precisou se maquiar

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Francisco Sulo. Foto: Arquivo pessoal.

*Por Francisco Sulo

Pragmático como é, Lula nega no seu primeiro discurso como presidente da República eleito que não há dois Brasis, na intenção de arrefecer o ânimo polarizado do Brasil que foi às urnas no último domingo. Na prática a maioria sabemos que nossa sociedade se pauta por interesses diversos e, do ponto de vista econômico, totalmente antagônicos.

Uma análise do processo eleitoral concluído no último dia 30 pode se pautar por muitas variáveis (“interferência” do STF, suposta compra de votos, mídia engajada em favor da esquerda etc), mas uma análise sóbria à esquerda mantém o peso que o fator econômico detém sobre o rumo das democracias ocidentais.

Diferentemente de 2002, agora Lula não precisou se maquiar do zero com elementos de moderação para atrair diversos setores do eleitorado brasileiro. O país já sabe do seu pragmatismo e da sua já demonstrada fidelidade a um pacto de classes. Ao que parece, o poder econômico é quem se agarrou ao petista para garantir suas benesses perenes, o que é contraditório, considerando que opções à direita costumam satisfazer melhor os interesses do capital especulativo-financeiro. E isso diz muito sobre Bolsonaro enquanto representante da direita nestas eleições.

O atual presidente foi incapaz de garantir o mínimo de estabilidade e segurança aos negócios do país. Seu ânimo golpista e autocrático, apelando amiúde à ignorância e ao medo da população, removeu as bases da confiança na possibilidade de um segundo mandato.

O capital é ideológico, no sentido de que cultiva uma ideologia que favorece o seu livre fluxo numa dada sociedade em prejuízo da ideologia igualitarista. Mas quando os ganhos do capital estão sob risco ele pode muito bem se apegar a qualquer garantia de segurança mesmo se o caminho for um líder de esquerda de galáctica notabilidade e atestada fidelidade a um pacto social, como já foi demonstrado nos anos 2000. Mesmo no auge de sua popularidade Lula não ensinou alteração na ordem institucional nem implementou políticas agressivas que assustassem o andar de cima. O que torna inclusive incoerente o argumento de que com Lula o país venha a seguir rumos ditatoriais como ocorreu com a Venezuela.

O número assustador de eleitores que votaram em Bolsonaro nestas eleições está associado ao preconceito cultivado diuturnamente contra o progressismo e a setores da produção que não querem se submeter a uma ordem econômica em que o trabalho seja recompensado de forma mais justa, os povos originários sejam respeitados no seu espaço e o respeito ao meio ambiente seja implementado.

Neste sentido, tão logo uma liderança de direita seja alçada com potencial de concorrer ao Planalto em 2026, as forças liberais e conservadoras farão de tudo para enterrar novamente no passado um modelo democrático em que ambos os Brasis tenham ganhos efetivos.

Afinal, entre o modelo político que garante os ganhos do capital sem o peso da legislação trabalhista e ambiental e os investimentos em áreas sociais, e o modelo socialdemocrata, que foi vencedor no último domingo, o poder econômico sempre vai optar pelo primeiro.

A concessão momentânea feita ao PT é meramente resultado da falta de confiança em Bolsonaro.

Esta análise, por demais determinista ou engessada, utiliza-se de parâmetros com amplo registro histórico. Se a concessão à esquerda será para um ou dois mandatos será apenas uma pequena digressão no modelo, mas não a sua negação.

Francisco Sulo é licenciado em Letras e graduando em Filosofia. Residente em Araguatins, onde atua no serviço público federal, também passou pelos cursos de História e Direito.

Francisco Sulo é servidor público e licenciado em Letras.

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