Voz do Bico

Maranhão? Como assim?

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Foto: Reprodução

*Por  Angelo Cavalcante

Há algo de muito estranho na indicação de Flávio Dino aos elevados da principal corte do país, o STF, e; sinceramente, nem de longe, diz respeito ao próprio Flávio Dino.

Por sinal, Dino é dos mais respeitados ministros do governo Lula; sim, é verdade de que existem os que o odeiam, que não o suportam, que não o querem ver nem pintado de ouro mas creiam, esse ódio, essa cólera, esse ranço rasgado contra o ministro da justiça é mais por suas virtudes do que por suas insuficiências.

Flavio Dino é dos mais experimentados políticos do país e que, vejam bem, assumiu cargos e funções nas três esferas de poder da República; por sinal, exerceu tais funções com dedicação, critério e muita competência.

Seja no judiciário federal como abnegado juiz; como deputado federal eleito que foi pelo PCdoB do Maranhão ou; como governador do mesmo Maranhão por duas vezes e que, não por acaso, fez gestões exemplares, sobretudo, na promoção da educação e no combate a tragédias ancestrais como a fome.

O problema da indicação de Dino é algo que não se confessa; a tragédia na nomeação desse já icônico líder político brasileiro é justamente, sua origem, o lugar, o território de onde, ao fim, veio e despontou: o provinciano Maranhão.

Essa vaga, por sinal, não tinha de ser dos estados centrais? Não teria que ser desse alinhamento clássico que marca o dito centro-sul brasileiro? Não deveria ser indicado alguém com sobrenome italiano, alemão, francês ou espanhol? Aliás, as grandes bancas de advogados da trinca Minas/Rio/São Paulo não deveriam indicar o novo membro do STF?

Como assim, do Maranhão?

Esse ensaio não é uma desnecessidade, não é bobagem; em um país com os abissais desequilíbrios regionais, sociais e econômicos como o nosso, lançar o estigmatizado Maranhão no centro do intrincado jogo político brasileiro não é detalhe, miudeza, filigrana.

Vamos para um pouquinho de história…

O Maranhão sempre possuiu os piores indicadores sociais do Brasil; a pobreza que sempre reinou no Maranhão é de feição, digamos assim, haitiana; esse é o mais rural de todos os Estados da federação e seus índices sociais e econômicos se comparam com Serra Leoa, Botsuana ou Honduras.

O paralelo possível no estrito caso brasileiro se dá apenas e apenas com os similares casos do Piauí e de Alagoas.

Sua gente é uma combinação de negros, com mestiços mais toda uma matriz cabocla adensada com o vasto de comunidades indígenas e que o marca desde São Raimundo das Mangabeiras, no extremo sul maranhense, já nas confluências com a Bahia até os rebaixados litorâneos e que envolve São Luís, a garbosa capital do Estado e São José de Ribamar.

Isso é o Maranhão!

Pois sim…

…Esse amplo de etnografias apetecido no seu caótico mundo rural se faz e se deu justamente em um quadro de brutal e intensa concentração de terras o que por si só, é rasgada e explosiva contradição social e econômica.

É um trambolho fundiário que rememora o servilismo mais aberrante e atroz do clímax do feudalismo europeu.

Isso mesmo… Toda – TODA! – estrutura fundiária maranhense se deu por meio de um jogo vil e criminoso a envolver oligarcas, latifundiários, destruidores ambientais e agentes corruptos e ladrões do Estado.

E a palavra-chave para compreender essa loucura é GRILAGEM!

Bom… Ocorre que esse Maranhão atual e contemporâneo tem data de nascimento; surge justamente na primeira metade dos anos de 1960 com a ascensão de um político jovem, ousado e empreendedor de estranho nome José Sarney.

Sarney, um hábil advogado, com oratória articulada e pródigo em fiar e cerzir teias de apoios e apoiadores, se lançou ao governo do Maranhão e “chegou lá”.

Aliás, sugiro o maravilhoso filme do genial Glauber Rocha “Maranhão 66” ( disponível no YouTube) e que irá tratar, justamente, da assunção de Sarney ao governo do Maranhão quando sucede o oligarca Newton Bello.

Ora, ora…

…No ano da graça de 1966, a pouca população maranhense e que vivia nas irrelevantes áreas urbanas não chegava a quinze por cento da população. Aliás, mesmo as suas cidades de antanho eram, em verdade, enclaves ou ruralidades sócio-espaciais com, digamos assim, poucos e parcos equipamentos e serviços urbanos e que, de fato, justifiquem a própria natureza do ser urbano.

Pois sim… Sarney foi o homem certo, na hora certa e com o discurso precisamente adequado para seu instante, o que seja, um tipo de fala para os camponeses maranhenses onde se comprometia com a reforma agrária, o acesso público, gratuito, de qualidade e universalizado para serviços como a educação, a moradia, a saúde e o apoio às atividades produtivas do vasto mundo de campesinos maranhenses.

O próprio Manoel da Conceição, líder camponês do período, morador de Arari e falecido recentemente, me contou que havia votado em Sarney por conta justamente dos seus compromissos dados e estabelecidos com o povo das roças.

Qual nada!

As promessas de Sarney viraram poeira e o vento… O vento levou…

Bom… A oligarquia Sarney perdurou por cinquenta anos; elegeu ou conduziu seus filhos, netos e agregados para postos centrais do Estado e mesmo da República, considerando, sobretudo, a eleição indireta de Tancredo Neves e Sarney para o governo do país em 1985.

Como se sabe, Tancredo adoece nas proximidades de sua posse e Sarney vira, por consequência, Presidente do país.

A hegemonia dos Sarney foi um colosso!

Foi ameaçada duas únicas vezes; uma com a eleição em 2006, do médico trabalhista Jackson Lago e que sequer concluiu seu mandato sendo cassado em 2009 a partir de articulações políticas e juridicas dos Sarney e; a segunda vez, precisamente com Flávio Dino e que, de forma surpreendente, arrasa com o bloco compacto e coeso da mais dura e consolidada oligarquia do país.

Flavio Dino centrou suas gestões, por razões óbvias, em políticas sociais onde ampliou a rede escolar estadual, deu fim às infames escolas “de lata” e tornou os salários dos professores os mais altos do Brasil; investiu pesadamente na saúde pública e desenvolveu políticas articuladas de combate a fome e de segurança alimentar.

É esse o homem que a ultra-direita odeia… Essa é sua origem, essa é em essência, a história de um governador de um estado negro, rural, caboclo, indígena, ribeirinho e amazônida.

Dia desses, um “sulo-centrista”, alguém muito provocativo e cheio de surpresas, me contou admirado de que “não sabia que existia gente tão inteligente assim no Maranhão”.

(Quem aguenta!?)

Sim, meu caro… Há muita – MUITA! – vida inteligente, criativa, imaginativa e produtiva no Brasil profundo. Flavio Dino, dentre milhares de outros, é nosso “noves fora”.

Avante, Dino… Toca a matraca!

Angelo Cavalcante é economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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