Voz do Bico

Maria Auxiliadora Seabra Rezende, Professora Dorinha: uma derrota anunciada

693
Paulo Palmares,63, é editor do portal Voz do Bico. – (Gemini_Generated)

*Por Paulo Palmares

A derrota de Professora Dorinha (UB) na disputa pelo Governo do Tocantins não deveria surpreender quem acompanhou os bastidores da política estadual. Os sinais estavam presentes desde o início: uma candidata sem carisma, com dificuldades para despertar entusiasmo popular, apoiada por um governador que, apesar da popularidade acumulada durante o mandato, já havia demonstrado sua incapacidade de transformar prestígio pessoal em votos nas urnas.

Para muitos que participaram ou acompanharam a campanha da senadora, a tarefa parecia semelhante ao castigo de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado a empurrar uma enorme pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar de volta antes de alcançar o topo, coisa que nunca acontecia. Na linguagem popular da nossa região, é como carregar nas costas uma pedra-canga, pesada, irregular e cheia de pontas. Um esforço descomunal para um resultado político satisfatório que, desde o começo, parecia improvável.

Essas comparações já circulavam entre políticos, vereadores, professores e lideranças regionais no final de dezembro de 2025 e em janeiro de 2026, quando começaram a se consolidar os sinais de que Professora Dorinha seria a escolhida de Wanderlei Barbosa para sucedê-lo no Palácio Araguaia.

O problema, porém, não estava apenas na escolha da candidata. Estava, sobretudo, na falta de percepção política de quem acreditou que bastaria ungir um nome, montar uma chapa e transferir para ela a popularidade do governador.

Principal atributo. ama candidata sem o ingrediente essencial: carisma. Nos bastidores, as avaliações sobre a Professora Dorinha eram recorrentes: uma política considerada fria, pouco carismática, de comunicação pouco envolvente e sem a intensidade emocional capaz de criar identificação imediata com o eleitorado.

Não se trata de exigir que um candidato seja um artista ou um especialista em discursos inflamados. Trata-se de reconhecer uma realidade elementar da política: competência administrativa, experiência parlamentar e currículo não substituem, por si sós, carisma, empatia e capacidade de mobilização popular.

Uma eleição majoritária exige mais do que alianças partidárias, fotografias ao lado de lideranças e declarações de apoio. Exige uma candidatura capaz de despertar confiança, transmitir entusiasmo e convencer o eleitor de que existe um projeto político que vale a pena defender.

Dorinha poderia reunir apoios importantes e contar com uma estrutura política robusta. Mas apoio de liderança não se converte automaticamente em voto, assim como currículo não se transforma, por decreto, em popularidade.

O equívoco foi imaginar que o eleitor receberia a candidatura pronta, legitimada pelos acordos de cúpula, e a aceitaria sem questionamentos. A política, felizmente, não funciona de maneira tão mecânica.

Como se a escolha da cabeça de chapa já não exigisse cuidados suficientes, Wanderlei Barbosa ainda teria imposto, segundo as críticas que circularam nos bastidores, um tal de Atos Gomes, do Republicanos, como candidato a vice-governador.

Genro de Marilon Barbosa, presidente da Câmara Municipal de Palmas e irmão do governador, Atos chegava à disputa sem experiência anterior em eleições para cargos eletivos.  Nunca disputou um cargo político, sem nenhuma atuação à frente de qualquer seguimento representativo, nunca foi sequer chefe de torcida. Zero experiência política. Zero agregação de valor eleitoral.

A escolha levantava uma questão inevitável: em uma eleição que exigia capacidade de articulação, densidade política e ampliação de apoios, qual seria a contribuição eleitoral efetiva de um vice sem experiência nas urnas?

Em vez de fortalecer a candidatura com um nome capaz de agregar votos, ampliar alianças e compensar as fragilidades da candidata, a composição da chapa alimentou a percepção de que os interesses políticos do grupo governista estavam sendo colocados acima das necessidades eleitorais.

Uma chapa majoritária não pode ser montada apenas para acomodar aliados. Precisa ser construída para ganhar eleições.

Enquanto a candidatura de Dorinha era preparada, outro personagem acabaria no centro de uma das mais delicadas movimentações políticas do processo: o presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Amélio Cayres, do MDB.

Em dezembro de 2024, Amélio foi lançado como pré-candidato à sucessão de Wanderlei Barbosa pelo deputado federal Alexandre Guimarães, hoje senador eleito, durante um jantar em Augustinópolis, com a presença do próprio governador e de outras lideranças políticas.

Ao longo de 2025, a convivência entre Wanderlei e Amélio alimentou a expectativa de que o presidente da Assembleia seria o escolhido para disputar o Palácio Araguaia. Café da manhã, almoço, jantar, viagens, caminhadas, passeios e cavalgadas compuseram uma rotina política que, aos olhos de muitos, sinalizava proximidade e confiança.

O tratamento dispensado a Amélio reforçava a impressão de que sua candidatura era uma possibilidade concreta. Em Augustinópolis, chegou a participar de agendas com ares de chefe do Executivo estadual, enquanto o governador lhe reservava elogios e espaço político.

Mas a política tem dessas coisas: o que parece compromisso pode não passar de conveniência.

A deflagração da segunda fase da Operação Fames-19, em 3 de setembro de 2025, pela Polícia Federal, por determinação judicial no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, mudou o cenário. Wanderlei ficou afastado do cargo por aproximadamente três meses, período em que Amélio, na condição de presidente da Assembleia Legislativa, assumiu protagonismo institucional.

Durante esse intervalo, o presidente da Aleto não levou adiante os pedidos de impeachment que chegaram à Casa. O presidente incorporou Sancho Pança, seu fiel escudeiro, não levando adiante os pedidos de impeachment que bateram à porta da Casa de Leis, coisa que poderia ter tirado Barbosa da cena política de imediato.

Quando Wanderlei retornou ao governo, o ambiente político já era outro. As demonstrações de proximidade entre os dois perderam força, e a candidatura de Amélio deixou de ocupar o lugar de destaque que muitos imaginavam.

As conversas para consolidar Professora Dorinha como candidata do grupo governista teriam avançado durante o afastamento do governador, com participação de aliados estratégicos em Brasília. O que efetivamente foi acertado nos bastidores permanece sujeito a esclarecimentos dos próprios envolvidos.

O fato político, entretanto, é que Amélio ficou pelo caminho, enquanto Dorinha passou a ocupar o lugar que muitos acreditavam estar reservado a ele.

Outro político que precisou recalcular a rota foi Vicentinho Alves, do PSDB. Inicialmente interessado em disputar uma vaga no Senado pela chapa governista, percebeu que o espaço pretendido não se concretizaria.

Em vez de insistir em uma composição que já não lhe oferecia perspectivas, mudou de rumo e passou a mirar o Palácio Araguaia.

E quem apareceu ao seu lado nessa nova caminhada? Justamente Amélio Cayres, o aliado que, depois de alimentar expectativas de apoio do governador, também precisava encontrar uma alternativa para seu projeto político.

A articulação, que poderia parecer arriscada, acabou se mostrando uma saída viável para o grupo. Ao lado de Alexandre Guimarães, Vicentinho e Amélio formaram uma aliança que demonstrou aquilo que faltou ao grupo governista: capacidade de perceber o momento político, reorganizar forças e construir uma estratégia alternativa.

O chamado Trio Fantástico soube transformar um cenário adverso em oportunidade. Enquanto uns apostavam na força de uma candidatura oficial, outros trabalhavam para ocupar os espaços deixados pelas contradições do próprio grupo governista.

Na linguagem da nossa terra, brocaram, derrubaram, fizeram a coivara, plantaram, esperaram a chuva e viram a lavoura crescer. Agora, eleitos, é colher os frutos da semeadura — e torcer para que a colheita seja boa para o Tocantins e para sua gente.

Se há uma lição que o processo eleitoral deixa para Wanderlei Barbosa, é esta: ser popular no exercício do governo não significa ser um bom cabo eleitoral.

O governador parece ter confundido a aprovação de sua gestão com a capacidade de determinar o voto dos eleitores. São coisas diferentes. Uma liderança pode ter visibilidade, ocupar espaços institucionais e manter relações com prefeitos e parlamentares sem conseguir transferir esse capital político para os candidatos que apoia.

As eleições municipais de 2024 já haviam oferecido sinais importantes dessa dificuldade.

Em Palmas, Janad Valcari, do PL, chegou ao segundo turno, mas acabou derrotada. Em Araguaína, Jorge Frederico, do Republicanos, também não conseguiu vencer. Em Gurupi, o processo de composição política foi marcado por mudanças de apoio: o governador inicialmente declarou apoio a Eduardo Fortes, mas o Republicanos acabou se alinhando a Josi na fase final da disputa. Em Porto Nacional, Toinho Andrade não venceu em Porto Nacional, assim como Osires Damaso em Paraíso do Tocantins. Todos candidatos palaciano.

O conjunto desses resultados deveria ter servido de alerta. Não se tratava de uma derrota isolada, explicável por circunstâncias específicas, mas de um padrão que exigia reflexão sobre a capacidade do governador de influenciar efetivamente o eleitorado.

Wanderlei, entretanto, parece não ter extraído as lições necessárias daquele pleito. Em vez de rever sua estratégia, avaliar os limites de sua influência e reconhecer a autonomia dos eleitores, entrou em um novo ciclo político apostando que sua presença seria suficiente para impulsionar a candidata escolhida.

Não foi.

O problema de Wanderlei não parece ter sido a ausência absoluta de força política, mas a incapacidade de compreender como essa força poderia — ou não — ser convertida em votos. Faltou leitura do cenário, planejamento, capacidade de articulação e, sobretudo, humildade para reconhecer que a popularidade pessoal não é um patrimônio transferível por simples decisão do governante.

A escolha de uma candidatura majoritária exige muito mais do que anunciar um nome e esperar que os aliados se alinhem. Exige negociação transparente, construção de consensos, definição de prioridades e capacidade de manter unida a base política.

Nesse aspecto, Wanderlei Barbosa deixou a desejar.

O processo que deveria produzir uma candidatura forte acabou expondo desgastes, expectativas frustradas e movimentos de dissidência. Amélio Cayres, que durante meses alimentou a perspectiva de ser o escolhido, terminou fora da composição pretendida. Vicentinho Alves precisou buscar outro caminho. E a candidatura de Dorinha passou a carregar não apenas o desafio de conquistar o eleitorado, mas também o peso de uma escolha que não conseguiu produzir o entusiasmo esperado.

O governador tinha a responsabilidade de conduzir esse processo com habilidade. Em vez disso, a sucessão acabou evidenciando os limites de sua liderança política.

A questão não é apenas quem foi escolhido, mas como a escolha foi conduzida. Uma candidatura pode nascer de um acordo legítimo entre partidos e lideranças, mas precisa ganhar vida própria diante da população. Sem isso, transforma-se em um projeto de gabinete, sustentado por expectativas internas que não necessariamente encontram correspondência nas ruas.

E foi justamente essa desconexão que se tornou um dos maiores problemas da estratégia governista.

O que levou Wanderlei a acreditar que conseguiria conduzir a sucessão nos termos que desejava? Arrogância? Prepotência? Soberba? Excesso de confiança?

Talvez uma combinação desses fatores.

O orgulho político pode impedir uma liderança de reconhecer os próprios limites, afastar aliados e transformar divergências estratégicas em disputas pessoais. Quando isso acontece, o interesse coletivo perde espaço para a vaidade, e a construção de um projeto de governo cede lugar à tentativa de impor vontades.

Também permanece uma pergunta incômoda: por que Wanderlei não renunciou para disputar o Senado, enquanto sua esposa, Karynne Sotero, poderia tentar uma vaga na Câmara dos Deputados, como se especulava nos bastidores?

A eventual candidatura dos dois poderia ter alterado a dinâmica eleitoral e ampliado o protagonismo do grupo. Mas essa hipótese dependia de decisões que cabia ao próprio governador avaliar e sabe-se lá porque cargas de pequi não o fez.

Teria sido excesso de confiança? Cálculo político equivocado? Receio de entregar o comando do Estado ao vice-governador Laurez Moreira? Ou simplesmente uma escolha pessoal?

Sem manifestações claras dos envolvidos, qualquer resposta definitiva seria especulação. O que se pode afirmar é que as decisões tomadas precisam ser avaliadas à luz de seus resultados políticos.

A política não perdoa indefinidamente quem confunde poder institucional com capacidade de controle. E, quando uma liderança perde o mandato, perde também parte dos instrumentos que sustentavam sua influência.

A disputa deixou uma mensagem que deveria ser compreendida por qualquer grupo político: eleições não se vencem apenas com acordos de cúpula, estruturas partidárias ou declarações de apoio.

É preciso ter candidato competitivo, capacidade de comunicação, carisma, identificação popular e uma liderança capaz de coordenar os aliados sem transformar o processo em um exercício de imposição.

Professora Dorinha enfrentava o desafio de conquistar o eleitorado sem demonstrar, na avaliação de seus críticos, a força carismática necessária para transformar sua trajetória parlamentar em entusiasmo eleitoral. Wanderlei Barbosa, por sua vez, apostou que sua popularidade compensaria essa fragilidade, mas não demonstrou capacidade suficiente para conduzir a sucessão e transferir votos à candidata que escolheu.

O erro central foi acreditar que a força do padrinho político poderia substituir a força eleitoral da candidata. Na política, cada jogador movimenta as peças do tabuleiro acreditando que está construindo uma vitória. Mas nem todos têm a habilidade necessária para antecipar os movimentos dos adversários, reconhecer os próprios erros e mudar de estratégia a tempo.

Não basta ocupar o centro do tabuleiro. É preciso saber jogar.

Quanto a Professora Dorinha, sua trajetória parlamentar continua, e o mandato no Senado lhe garante espaço institucional para seguir atuando em Brasília por mais quatro anos. Mas a derrota eleitoral deixará uma lição difícil de ignorar: currículo e alianças podem abrir portas, porém não garantem votos.

Quanto a Wanderlei Barbosa, ficará o desafio de compreender que popularidade sem capacidade de articulação pode produzir uma ilusão de força. E que um governador pode ter influência suficiente para escolher um candidato, mas não necessariamente para fazê-lo vencer.

No fim, a eleição não se decide apenas nos gabinetes, nos acordos ou nas fotografias ao lado de lideranças. Decide-se quando o eleitor, sozinho diante da urna, faz sua escolha.

E é justamente nesse momento que o carisma, a confiança, a estratégia e a capacidade de mobilização deixam de ser detalhes e passam a fazer toda a diferença.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um ponto de vista diferente, envie a sua sugestão de texto para vozdobico@uol.com.br

Sair da versão mobile