
Em 22 de junho de 1633, Galileu Galilei recebia sua sentença frente a um tribunal da Inquisição. Era acusado de defender o modelo de Copérnico, o qual afirmava que a Terra girava em torno do Sol. Como sentença, foi forçado a repudiar a ciência e condenado à prisão, além de ter sua obra proibida. Galileu era uma pessoa religiosa. Não era contra a igreja, mas lutava contra a negação da ciência.
Quase 400 anos depois, grupos de pessoas continuam a negar a história e a ciência. É comum ouvir frases como: “O coronavírus mata menos do que dizem”, “As vacinas não são confiáveis”, “Não há desmatamento no Brasil”, “A Terra é plana”, “Não houve Ditadura Militar”, “Não há racismo”, “A escravidão nunca existiu no país”.
Esses disparates me levam a pensar que falhamos como humanidade, mas não como professores. É incontestável que boa parte dos que repetem esse discurso negacionista mal frequentou uma escola. Porém também é verdade que outros concluíram várias etapas de ensino e fazem o mesmo.
Isso ocorre porque o sujeito pode até ter frequentado uma instituição de ensino, mas não se apropriou da educação. Por incrível que pareça, é possível alguém cursar o ensino básico, sair de uma universidade e não ser educado, já que escolarização e educação são processos distintos.
Escolarizar faz parte do ofício do professor. Conforme dicionários tradicionais, escolarização é o conjunto de conhecimentos adquiridos na escola. Porém, educar está além da sala de aula. Educação é o processo que visa ao desenvolvimento intelectual e moral do ser humano, a fim de assegurar a formação da cidadania.
Agora, o fato de um sujeito escolarizado negar a realidade é culpa do professor? Obviamente que não. O professor procura afiançar a construção do saber. Contudo, educar, que pressupõe a transferência de crenças, valores e empatia, é de responsabilidade também dos pais. Não somos o que falamos, somos o que fazemos.
Para Émile Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e pensar. Logo, é notório que todos os acontecimentos fazem parte da formação de um indivíduo. A escola é parte do ensino, reforça a educação parental, mas não pode ser a única responsável por sujeitos ignorantes, capazes de negar fatos.
No mais, está claro que por trás do negacionismo estão pessoas destituídas de moral, de ética, unicamente motivadas pelo poder. Assim, usam o avanço dos meios tecnológicos para patrocinar e espalhar a distorção da verdade, confundindo àqueles depostos de educação.
Quando observamos a negação das mudanças climáticas, da magnitude da pandemia de covid-19 e do racismo, fica claro que essas ações são motivadas, em grande parte, por conservadorismo político. Resume-se na vontade política de satisfazer apoiadores. Assim, as questões financeiras estão acima de qualquer tipo de dilema moral ou da preservação do planeta e de vidas.
É importante que as pessoas tenham opiniões divergentes. Isso é liberdade de expressão, constrói o saber. Contudo, a sua opinião, e muito menos a minha, jamais irá estar acima da ciência. A nossa ignorância não nos dá o direito de colocar em risco vidas e o próprio futuro do planeta.
Há várias imagens da Terra vista do espaço. Do topo do monte Everest, por exemplo, as pessoas relatam ver a curvatura da Terra. Como discordar disso? A nossa opinião não muda fatos ou pesquisas. Dizer que a terra é plana não altera o formato do planeta, mas pode mostrar o quanto o seu cérebro é plano, raso e fácil de ser manipulado.
Paulo Martins é professor, mestre em Literatura, escritor e autor do livro “Vamos Conversar: crônicas” (2017). Ed. Kelps, Goiânia, GO. E-mail: paulo.linguagens@hotmail.com