Voz do Bico

O amor e o Tempo

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Valdo Rosario Sousa. – Foto: Arquivo pessoal

*Por Valdo Rosário

“O que assegura a comunicação entre os homens é a emoção partilhada por meio da linguagem, e talvez, neste sentido, se pudesse relacionar o estilo emotivo de Górgias com o estilo seliniano. A linguagem não tem que designar o real apagando-se perante ele, mas tocar a alma, […].” (GÓRGIAS, apud ROMEYER-DHERBEY). Nesse contexto Górgias, aduz que a alma é passiva e está entregue ao que vem de fora. As coisas possuem uma natureza particular, e essa natureza depende de nossa opinião para existir. A alma é passiva diante da linguagem, todavia, a paixão da linguagem é mais forte que o sensível. Assim, nossas relações pessoais e impessoais são resolvidas pela linguagem fundamentada na razão, sem abdicar das emoções do mundo sensível, para se evitar a barbárie.

Não se pode vencer o tempo, pois ele sempre derrota a força física e psicológica – por mais resistentes que as duas sejam – somente o amor supera o tempo e a linguagem, devido ele estar nessas categorias e fora delas, tanto física e metafisicamente. Somos imanentes, com a capacidade de emitir som e linguagem, isso a psicologia, fonoaudiologia, biologia e a física explicam e garantem, porém, existe a transcendência para quem acredita, mas, a física não assevera essa categoria; entretanto, para algo existir depende de experimentos científicos ou da comprovação por meios dos órgãos dos sentidos, direcionados pela razão; para a comprovação de um ser ou de uma ideia, não depende necessariamente de minha crença ou não, ou para a não existência de um ser ou ideia – também não dependerá da minha fé; porque as experiências são particulares e únicas de cada um, portanto, a transcendência como ideia é explicada pela linguagem, quanto à prática será de acordo com as experiências individuais e da crença de cada um. Por isso, temos que entender a diferença entre o mundo físico e da linguagem – o primeiro não precisa da linguagem para existir – todavia, só é possível o conhecimento de acordo as duas categorias segundo Kant, que são: espaço e tempo, por meio da linguagem. Não é possível conhecimento fora destes conceitos.

Nessas condições, temos que entender o amor em três dimensões: Ágape (amor de Deus para com as pessoas, amor que caracteriza respeito entre nós seres humanos com a sua espécie e com a natureza); Amor Philia do grego, filia em português (amizade, carinho e respeito entre as pessoas); por último Amor Eros (de namorados, amizade, paixão e sexo). Também tem uma quarta definição de amor que é uma derivação do amor Eros, o Amor Porré, (que se resume ao ato sexual, gozo, porra, ejaculação. Terminou a prática sexual terminou o amor).

Quando se fala de amor, é preciso compreender em qual sentido se está falando para não fazer uma confusão conceitual dos três/quatro amores. Por isso, o casamento com o passar do tempo pode se tornar uma rotina, corroendo a relação, porque ele precisa ser vivenciado em todas essas definições de amor, que pode ser sintetizada da seguinte maneira: respeito (Ágape), amizade (Philia), paixão (Eros), sexo (Porré). –  Pergunto para ti: teu casamento está sendo vivenciado de acordo com os quatros conceitos? Ou está faltando um ou mais?

Quanto ao tempo é preciso compreender que existem duas conceituações dele: a primeira é o tempo Cronos (tempo da física, do calendário, tempo de se contar ou marcar de forma linear, como segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos etc. – O tempo matemático). O segundo é o tempo Kairós (que é o momento oportuno para se fazer algo, não está delimitado necessariamente pelo calendário ou pela física e sim pela capacidade de cada um em compreender o momento certo para agir).

Porém, para agir no tempo kairós é necessário o domínio da linguagem, para implementar a sedução, que é denominada de peithô (sedução e persuasão). Segundo o sofista Górgias de Leontinos, a persuasão age sobre os sentidos da alma, pois, persuadir significa criar emoção – ela é essencial para o discurso. O discurso só tem força, se carregado de persuasão. Persuadir é criar emoção no outro, pois nossas relações são vividas de maneira emocional. Para se aplicar a persuasão, necessita-se de um tempo certo, que é o kairós; o tempo não é igual em todos os momentos, mas existem ocasiões favoráveis a determinadas ações. Dentro da lógica, o tempo é definido como Cronos, que é contínuo e, durará, pela sua condição de ser contínuo e isso dá condição de comparar um instante com o outro e denunciar o erro. Górgias recusa essa definição de eternidade. Para ele, o tempo é descontínuo e um discurso não é bom pela sua durabilidade e sim pelo grau de persuasão que tem, talvez dure pouco, o suficiente para convencer alguém.

Essas são algumas das definições de amor e tempo de acordo a Mitologia Grega, o sofista Górgias e a literatura filosófica e poética. O tempo Cronos leva o corpo físico e sucumbe às emoções, somente o amor sobrevive por meio do tempo kairós; esse é o grande desafio do amor Eros, como sobreviver entre os tempos Cronos e kairós, entre a realidade empírica e a transcendência inata. Diante dessa celeuma, onde está a realidade do amor Eros, na imanência ou na transcendência?

Diante do que foi exposto, perceber-se que o amor Eros poderá escorregar por entre os dedos como água corrente: “[…] descobre-se que as pessoas com quem você mais se importa na vida poderão ser tomadas de você muito depressa… Por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos […].” (W. Shakespeare). Muitas vezes é difícil de absorvermos o perdão, por não termos o hábito humano e cristão de perdoarmos as pessoas, todavia, em muitos momentos é necessário do perdão de si próprio. “[…] Aprende-se que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém… Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo […].” (W. Shakespeare).

O que realmente nos torna felizes: viver o presente com responsabilidade, entretanto, não se sujeitar a determinados costumes? Ou uma felicidade fundamentada em práticas sociais, culturais e religiosas, que muitas vezes satisfazem muita mais a terceiros, do que a nós mesmos? A existência é uma passagem, o tempo Cronos levará o corpo, o kairós preservará os sonhos e ideias, e a fé o espírito.

Valdo Rosário

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