Voz do Bico

O coronelismo como miséria política

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Francisco Sulo. Foto: Divulgação.

*Por Francisco Sulo

Os termos “coronelismo” e “coronéis” tornaram-se tão comuns na nossa análise política cotidiana que já não chamam mais a atenção pelos seus efeitos nocivos nas relações políticas entre líderes regionais e locais e as comunidades de cidades do interior. Enfim, o fenômeno foi banalizado a tal ponto que lhe permite um reboot constante em sua força mantenedora das relações sociais que constituem o coronelismo como forma política.

Luiz G. Palacín, historiador da Universidade Federal de Goiás que analisou as relações políticas em Boa Vista, atual Tocantinópolis, em fins do século XIX e começo do XX, descreveu perfeitamente as relações coronelistas que desenhavam o poder na época e, a julgar pela descrição de Palacín sobre aquelas relações, não é muita coisa diferente do que ocorre ainda hoje na região.

Há elementos que se alteraram, como as formas e velocidade das comunicações, a demografia em toda a região no entorno, a melhoria nas condições de vida, o incremento da tecnologia e outros avanços da modernidade, mas há outros que se mantêm desde então e que são determinantes na atualidade do coronelismo como forma política em todo o Bico do Papagaio, que são a pobreza, a representação política regional e as relações com o poder central, tudo isso mediado pelo partido político como formalidade e legitimidade da posição de poder do coronel.

Numa região desindustrializada e sem caminhos para a ascensão social, o acesso ao direito ao trabalho resume-se ainda, em grande parte, à dependência do político local/regional. Este político, por sua vez, é alguém vinculado a um partido político e eleito por membros de uma comunidade que aufere benefícios a partir do acesso que aquele político barganha junto ao poder central.

Quanto mais benefícios advêm do poder central, mais próxima se torna a comunidade do seu coronel. Como a relação é benéfica para todos os envolvidos, não há a necessidade ou a percepção da necessidade de que é possível alterar o quadro de coisas de modo que um horizonte de desenvolvimento e progresso político, econômico e humano se estabeleça.

Isso em parte explica por que os grandes projetos de desenvolvimento para a região não passam de projetos no papel ou no máximo esboços concretos na prática da engenharia civil. O orçamento desaparece e as obras não avançam. O trabalho e a renda tornam as pessoas independentes e isso representa um grande passo para a liberdade política. Manter a submissão de alguém e manter as condições dessa submissão.

Lutar pela efetividade do serviço público seria outro tiro no pé dos políticos. E como eles não legislam contra si mesmos, a manutenção de contratos anuais é uma ótima maneira de se manter a indústria de votos numa região desindustrializada e com níveis de renda dependentes do serviço público e de um setor de serviços ainda precarizado.

Os que não não são beneficiados com contratos anuais nem por isso ficam de fora das relações de submissão, pois precisam, além da renda, de moradia, alimentação e saúde, benefícios concedidos a conta-gotas e sob rígido controle das relações entre o governo central, o coronel e o cidadão comum, que é sempre quem menos ganha na relação.

Esse quadro sucinto da relação de poder na nossa região nos permite perceber como ele está entranhado tão profundamente e de tal forma que seu esfacelamento não se desenha no horizonte.

Em mais um ano eleitoral, porém, surge mais uma oportunidade de se tentar algo no sentido do desmantelamento dessas relações políticas nocivas, violentas e cruéis, ao se valorizar experiências e sujeitos políticos que apontem numa outra direção.

A mudança social requer mudança de expectativas. E não é possível que isso ocorra com a manutenção no poder dos mesmos sujeitos políticos nem pela sua substituição por novos sujeitos que queiram se catapultar a partir do mesmo modus operandi.

Fica a dica.

Francisco Sulo é servidor público e escritor.

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