
*Por Angelo Cavalcante
Dentre as muitas e múltiplas mitificações do liberalismo, poucas, bem poucas, são piores e mais equivocadas do que a desesperada e simplória opção por um empresariado profissionalmente esquizofrênico e oscilante entre o público/privado para a gestão daquilo e que, de outro modo, é integralmente público porque, como se diz e se cantilena aos borbotões, o “homem de negócios” costuma ser mais “eficaz”, “eficiente” e “produtivo”.
Ora… O ascenso do empresário Sandro Mabel para o governo da capital dos goianos é esse “noves fora” e que não nos deixa qualquer fiapo ou restolho de dúvidas acerca da rotunda falácia dessa tese.
Eleito no último pleito com o apoio, inclusive, de parte das esquerdas, considerando-se, sobretudo, que o outro concorrente era um fascio-bolsonarista “sangue puro”, Mabel assume a “viúva” com abertas promessas de modernização e ampliação dos já parcos, poucos e minguados serviços oferecidos pela Prefeitura de Goiânia.
Como bem estamos a ver… Nem uma coisa e nem outra… Já em seu começo, Mabel recosta sobre os próprios ombros o figurino “tiktoker” em um “faz tudo” dos diabos como se não houvera divisão social do trabalho.
Em um instante o homem estava sendo filmado na coleta de lixos; em outro, está retirando moradores de rua das ruínas de prédios abandonados, da frente de repartições públicas ou prostrados sob marquises; em outra quadra, Mabel, risonho e performático, está em escolas e, não raro, insultando, confrontando professores em espetáculos baixos e bizarros onde falta postura, decoro e, sobretudo, seriedade.
É, no dizer do sociólogo Richard Sennet , o completo declínio do homem público.
Pois bem, com régua e compasso, o que os goianenses acompanham é da mais brutal e cínica onda de terceirizações, transferências e, em sua medida, esforços rematados por privatizar, vejam bem, dentre tantas coisas, a prestação de serviços do fornecimento das merendas escolares, a terceirização dos fazeres de suas zeladorias e similares e mesmo, a precarização das atividades docentes em um nível jamais visto na história da educação municipal.
As creches municipais, os mesmos CMEI’s, não por menos, foi bandeira de campanha do senhor Mabel… O empresário berrou aos quatro ventos de que a enorme carência de vagas nessas mesmas creches seria, no lapso de um ano, equacionada.
Nada vezes nada… Com sua cabeça “privateira”, abriu esse serviço para convênios de todos os tipos e feições; o péssimo de sua “pegada” é que não entende ABSOLUTAMENTE nada de educação. Crianças em uma creche não são cabritos ou novilhas num curral, num cercado… Uma creche é espaço de cuidado, proteção, educação e amor.
Não por menos, ali estão pedagogas, psicólogas, nutricionistas, supervisoras além de toda uma estrutura espacial e de equipamentos para acompanhar e bem, essas crianças.
Por consequência, o “beabá da falta de creches” resulta no fato de que a mãe não irá trabalhar, posto que não deixará sua criança sob descuidos; a mãe não arreda o pezinho de casa caso não esteja segura de que seu bebê esteja, de fato, bem.
Isso impacta nas empresas, nos transportes, no consumo, nas rendas familiares e em sua correlata estabilidade.
Mabel não vê isso… Sua cabeça empresarial vê empresa onde deveria ver uma creche; vê negócio onde existem milhares de crianças carentes e desprovidas; vê contenção e contingenciamento orçamentário onde deve prevalecer, justamente, o oposto: investimento planejado, alocação adequada e indicadores sociais e econômicos revelando a ampliação do desenvolvimento humano das crianças da capital.
Bonachão, playboy e “mídia-man”, o badalado empresário dos biscoitos já é um escancarado fracasso administrativo, gerencial e de gestão.
As análises de tendências acerca do que lhe resta de tempo de governo são as piores possíveis… Já não há tempo para nada de, de fato, estrutural e os elementos conjunturais de sua alcadia caminham para uma piora aberta e deslavada.
É o que dá confundir “alhos com bugalhos”… Empresário é para empresa privada, restrita e com foco exclusivo na prospecção e no auferimento de lucro; o mundo público e social é outra coisa e completa e integralmente distinta do que o liberalismo mofado e superado de Mabel crê.
Esfera pública é inclusão, solidariedade, respeito, dignidade e a elevação da qualidade humana de um povo historicamente sofrido e aviltado ou não é nada.
Como propõe a insuperável “deixa” machadiana [Quincas Borba, 1891]: “Ao vencedor, as batatas”.
Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para vozdobico@uol.com.br