
*Por Alday Machado de Oliveira
Curioso saber o que passa na “cabeça” desse vírus. Um “ser” minúsculo, não visível a “olho nu” e que atormenta as maiores autoridades financistas mundiais: Xi Jinping e Donald Trump. Mais que isto, o vírus teve a capacidade de fazer a sociedade repensar muitos conceitos. Tirou a máscara de muitos, depurou a hipocrisia de setores da sociedade, de governos e do capitalismo.
Poucas vezes na história, viu-se tanta solidariedade, poucas vezes viu-se movimentar trilhões de dólares para combater um “suposto desemprego”, ou “suposto risco de fome”. Causa estranheza ver os Estados Unidos de uma hora para outra destinar 10% do PIB (2 trilhões de dólares) para “socorrer” segmentos da sociedade, tirar dinheiro dos cofres públicos para dar para famílias carentes; será que o Corona é o vírus da justiça social? Será que ele é o vírus do perfeito equilíbrio entre o econômico e o social? – e logo estes dois assuntos que sempre foram opostos, e que agora, “admiravelmente” estão colocados na mesma mesa.
Não vi nenhum economista famoso gritar: – Ei, Donald Trump, ei Paulo Guedes, parem!! queremos o Estado-Mínimo; ou de forma mais eloquente: – NÃO ACEITAMOS O ESTADO INTERVIR NA ECONOMIA. Mas afinal, o que está por trás de tanta benevolência do capitalismo?
Chega a ser emocionante ver a classe empresarial e o governo do Brasil unidos, apelando para o retorno ao trabalho, com “objetivos nobres”: evitar o desemprego, e para que “muitos não morram de fome”. Ora! Mas o assunto fome, que sempre assolou nosso Brasil, nunca foi pauta nas mesas deste governo e da alta classe empresarial. Ver um Roberto Justus, Luciano Hang – da Havan”, “preocupados” com o emprego do trabalhador é comovente, se não fosse um paradoxo do capitalismo do Brasil. E volta-se a fazer a mesma pergunta do parágrafo anterior: O que está por trás de tanta benevolência?
O chamamento às ruas que o Presidente Bolsonaro participou no dia 15 é reforçado pelo desastroso pronunciamento do dia 24 de março – quando já se tinha duas dezenas de mortos no Brasil e que convidou o povo para retornar ao trabalho, as crianças para as escolas, que chamou um vírus altamente perigoso de gripezinha, e desconheceu os vinte milheiros de mortos pelo mundo, que estão sendo empilhados na Europa. A atitude da casta de empresários milionários e o Governo Bolsonaro, que tentam justificar que os que estão morrendo “são apenas idosos”, como se este público já não tivesse o direito de viver. Tudo isto faz com que seja refeita a pergunta dos dois parágrafos anteriores: o que está por trás de tanta maldade?
A “benevolência” dos trilhões de Trump, tal como a “benevolência da preocupação” com o desemprego evidenciado pelos megaempresários brasileiros aliados à maldade de Bolsonaro, em nenhum momento estão voltados para reparar a catástrofe social, aliás o governo ajuda a agravar. A benevolência mascarada tem um único propósito de preservar seus lucros, dividendos e valores de mercado de suas empresas. Não haveria tanta “benevolência social” se não houvesse o risco de prejuízo empresarial, de perda de lucro. Em períodos de bonança nunca se pensou em distribuir “voucher” (um vale), para classe pobre. Em tempo de lucro farto, nunca se pensou em repassar empréstimos de capital de giro a empresários a juros Selic, como está sendo feito no Brasil. Nunca se ofereceu cheque especial a 2,8% ao mês.
Da mesma forma, quando o presidente emite um discurso desumano contra os idosos, quando diz que vão morrer muitos, mas que a maioria são idosos, incentiva a força ativa de trabalho a voltar a seus postos, numa clara cumplicidade com o grande capital, independente da tragédia sanitária que isto possa gerar. O presidente age em primeiro momento para satisfazer seu ego e interesse do capitalista e em segundo momento para destilar seu ódio contra adversários políticos (cite-se Dória, Witzel e Flávio Dino – que estão fazendo brilhantes trabalhos). Com esta atitude, Bolsonaro orquestra talvez o maior desastre de Saúde Pública da história do Brasil.
Neste dia (27/03/2020) apoiados pelo Presidente, explodiram em muitas cidades e capitais, movimentos de desobediência civil, quando incentivam a desobediência de leis e decretos que determinavam o isolamento doméstico. Esta mesma história, com este mesmo roteiro – a Itália não pode parar – ocorreu neste longínquo país, quando também houve uma “revanche ao vírus” menosprezando os riscos e a força da doença em detrimento da economia. Lá, após os atos de ruptura do isolamento doméstico, foram 4.400 (quatro mil e quatrocentos) mortos em 30 dias. Hoje já passou de 9.000 vidas sacrificadas em nome do lucro.
Tudo que se fez até agora no Brasil e no Mundo, patrocinado pelas grandes economias não tem nenhum propósito social, tem meramente propósito econômico, querem salvar os seus lucros, os seus dividendos. Atesto isto por que no mundo sempre teve fome, sempre teve desemprego. Alguém já viu um pacote econômico de trilhões para salvar a África da fome? Ou salvar os Sírios do desemprego e da guerra? Os trilhões sempre estiveram nos cofres dos capitalistas, estão sendo derramados para a sociedade num mero mecanismo de proteção do próprio capital. O discurso que diz, que o interesse é na preservação do emprego e do sustento das famílias é hipócrita.
O vírus veio tirar a máscara da sociedade financista e política, demonstrando a forma como é dado valor a vida. Ficou óbvio que para eles o lucro é mais importante que a vida; as empresas são mais importantes que as pessoas. O vírus veio tirar a máscara das superpotências – que se achavam onipotentes e tiveram que prestar continência a um “ser” invisível, baixou a arrogância imperialista de Donald Trump. O vírus veio tirar a máscara do modelo político do Brasil, onde Bolsonaro preza mais a desavença ideológica e a proteção do capital, do que o interesse e a vida da coletividade. O vírus veio tirar máscaras e infelizmente muitas vidas.
Alday Machado de Oliveira é advogado, Administrador de Empresas, Pós Graduado em Finanças, MBA em Gestão Financeira (USP), MBA em Gerenciamento de Projetos (FGV)