Voz do Bico

“Qual é o meu Jesus?

Foto: S. Hermann & F. Richter from Pixabay

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*Por Francisco Sulo

Há aproximadamente 10 anos adquiri uma obra cristã que há muito desejava, porquanto se tratasse de uma produção de uma ex-aluna de Francis Schaeffer, eminente apologista cristão do século XX, de produção fascinante mesmo para uma mentalidade não cristã.

A obra de Nancy Pearcey, Verdade absoluta, chamava a atenção ao cristão sobre como as mais diversas ideologias científicas, políticas e econômicas enredaram o cristianismo e o tornaram refém de seus próprios caprichos. Ao cristão caberia, portanto, reconhecer esses enredamentos e elaborar seu próprio quadro conceitual ortodoxo do cristianismo para, somente assim, libertar a doutrina cristã do cativeiro cultural.

Obviamente que, em contextos cristãos de anti-intelectualismo, pós-verdade e fake news, Nancy Pearcey não deve ter colhido os louros do seu trabalho em nível significativo. Isaías disse que o Messias veria o trabalho de suas mãos e ficaria satisfeito. Parece que não tanto pela via do trabalho da discípula de Francis Schaeffer, no aspecto em que a obra toca e nos objetivos que persegue. Mas ainda é cedo para julgar os efeitos da obra, que é de uma qualidade incrível e de pesquisa abundante.

Enfim, se o Evangelho foi levado cativo, seu protagonista foi o primeiro a ser acorrentado para servir aos caprichos de seus raptores. Que cada segmento mantivesse seu Jesus cativo e usufruísse dos benefícios do Mestre como lhe conviesse. Mas o imbróglio reside no fato de que alguns segmentos reivindicam o estatuto de verdade absoluta para a sua apropriação cultural e política do Mestre em prejuízo das apropriações alheias. Senão vejamos.

Grupos etnicoculturais ou de gênero oprimidos reivindicam ora um Jesus negro ora gay. Essa apropriação politico-cultural do Mestre tem se apresentado recorrente nas festas e manifestações brasileiras e tem atraído a hostilidade e ira dos cristãos autodeclarados ortodoxos. Para estes, é blasfema e inadmissível uma apropriação do Cristo nestes termos. O Carnaval que ora se desenrola representa um pico desse conflito de apropriações.

Católicos ligados ao papa Francisco e a correntes de matiz socialista na América Latina têm representado um Cristo mais associado com a prática da solidariedade e da tolerância, cuja prática simbólica mais representativa talvez seja o lava-pés. É a primeira vez, pelo menos desde que me entendo por gente, que um papa é tratado como gente comum e nivelado a grupos que devem ser extirpados do convívio social por suas preferências políticas, no entendimento de muitos religiosos que não concordam com um Jesus comunista, em que pese o Jesus histórico ter apontado significativamente na direção do comunitarismo e do desprendimento da vida refém dos bens materiais.

Evangélicos ligados aos segmentos neopentecostais e filiados à Teologia da prosperidade têm representado um Jesus que abre a porta para o carro novo e aos bens materiais em geral. Neste sentido, estar na miséria pode ser indicativo de infidelidade ao Mestre sobretudo no que se refere ao não pagamento de dízimos e ofertas. Esse Jesus, que avaliza as ações de estelionato religioso comuns da nossa era evangélica, é uma das apropriações culturais mais esquisitas dos últimos tempos e sua origem e consolidação não pode ser compreendida fora de uma análise mais abrangente das relações sociais no interior do modo capitalista de produção.

Por último, citemos o Jesus dos ultraconservadores. Se houvesse uma figura simbólica para representá-lo esta seria a de um personagem de games como o Mortal Kombat aplicando fatalities sobre indivíduos ora gays, negros, comunistas, e, eventualmente, judeus, ciganos e imigrantes em geral. Além de uma faixa em torno da cabeça, ao modo do Rambo, ele portaria uma suástica e seria, obviamente, um sujeito de pele branca.

Qual desses é o meu ou o seu Jesus?! Bom, na condição de cético, não ignoro o Jesus histórico, que na minha concepção, estaria mais próximo do Jesus do papa, sem entrar em considerações profundas de natureza teológica sobre como o xará realmente descreve e compreende o Jesus histórico.

Se o seu Jesus é qualquer dos outros ou outro não referido no texto, o importante é compreender por que você pode criar um Jesus à sua própria imagem e semelhança e outras pessoas não podem fazer isso.

Se você, por outro lado, é alguém que realmente pretende se aproximar do Jesus despido de considerações políticas e culturais que se lhe seguiram historicamente, à moda de Nancy Pearcey, digo que se trata de nobre missão e desejo que obtenha sucesso.”

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