
*Por Leonicio S. Silva
O adágio popular parece ser verdadeiro. Em muitas ocasiões da vida, o calar-se é um voto de consentimento.
E disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. (Ezequiel 99.4)
Mas vou iniciar esse texto fazendo uma citação bíblica. Não descontextualizada, porque a pessoa de quem vou falar construiu uma imagem que, aos poucos, ou muito depressa, parece se descortinar e mostrar uma outra faceta. O nosso Presidente construiu sua campanha basicamente em cima de um lema que arrebatou muitos cristãos, principalmente do meio evangélico. A população evangélica, quase que maciçamente, simpatizou com ele devido à imagem que ele construiu, como sendo um homem de Deus, um governo instituído por Deus. Isso graças ao seu lema “Deus acima de tudo”. O ainda candidato Bolsonaro semeou a ideia de que era um homem temente a Deus, um cristão arraigado, um homem com princípios cristãos bem definidos. E essa imagem construída foi o mote da sua campanha. Porque, quase toda pessoa que fala em nome de Deus parece penetrar na alma das pessoas. Vivemos tão carentes de Deus que tendemos a crer ser pessoa do bem muitos que, mesmo para fins eleitorais, como é caso em tela, usa um lema em que Deus aparece como inspiração.
Por isso o texto bíblico vem a calhar. No livro profético, o profeta de mesmo nome teve uma visão de uma destruição da cidade de Jerusalém, onde Deus ordena a eliminação dos iníquos, dos ímpios, dos abomináveis. Porém, o Senhor reconhece que no meio desses há aqueles que são seus fiéis, e por isso ordena que o anjo marque na testa aqueles que são seus, para não serem confundidos. Porque são santos, e santo é separado. Mas quem são os de Deus, na visão do profeta? “Aqueles que suspiram e que gemem por causa das abominações que se cometem no meio dela”.
Em outras palavras, ser de Deus não é só não cometer abominações, mas também suspirar e gemer por causa delas. Ou seja, sentir-se incomodado, não aceitar, reprimir, não ser conivente. Porém, para manifestar um ponto de vista, para expressar uma discordância, é preciso falar. A fala é o ato de pensamento. De nada adianta ser de Deus e aceitar as abominações do mundo e das pessoas como se fossem uma coisa da normalidade. Porque calar é consentir.
E o mundo quase inteiro já se manifestou. Os principais estadistas do mundo, e o do Brasil deveria estar nesse rol, já vieram a público condenar os ataques russos à nação ucraniana. Uma guerra deliberada, sem sentido, quebrando acordos internacionais, leis soberanas criadas para proteger o mundo de mais uma insanidade após a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Uma luta de Davi e Golias, em que o Golias já entra predestinado a vencer. Haja vista a Rússia possuir o segundo maior arsenal de guerra e o segundo maior exército do mundo, contra o país recém independente, menor em população e em artefatos bélicos. Em pleno século 21, parece estarmos voltando nos séculos e presenciando uma guerra que substitui todos os mecanismos de diálogo e de diplomacia.
Mas o mundo não digere essa guerra. Ou quase a totalidade do mundo. E os representantes das nações veem, unânime e contundentemente, expressar a sua repugnação por ato tão covarde e tão calamitoso. A sociedade civil, as instituições, os poderes de estado, todos demonstram condoer-se com o choro das crianças apavoradas, com o estampido das bombas estilhaçando a vida de pais e filhos inocentes, com o desespero das pessoas tentando fugir do estopim da morte. As cenas, para quem cultiva um sentimento humano o mais raso que seja, afligem o íntimo da alma. Porque são vidas, são sonhos, são projetos, a liberdade esvaindo-se na fumaça da guerra e no sangue jorrando na terra.
Mas, o nosso Presidente, não. O seu silêncio é, no mínimo, um ato de covardia.
É à favor da guerra? Assuma a coragem de dizê-lo publicamente. Talvez não o faça por receio de escandalizar a nação, de chocar as pessoas que veem nele um Messias.
É contra? Então revele-o publicamente. Porque a nação precisa saber do pensamento de quem a representa aos olhos do mundo. O mundo precisa saber do pensamento do estadista de uma das maiores nações do mundo. É preciso conhecer os amigos, e muito mais os inimigos.
O mundo inteiro, ininterrupta e simultaneamente, tem um único tema em pauta, o tema que domina os meios de comunicação de massa e a massa sem comunicação. É o assunto do momento, é o tema de todos os líderes e liderados. Mas enquanto o mundo desaba, enquanto bomba explode e mata, nosso presidente faz motociata. E depois fala publicamente, e nenhum posicionamento sobre o que está diante dos olhos do mundo. Isso é, no mínimo, falta de empatia pela vida daqueles que morrem e daqueles que fogem. Ignorar o que está gritando, emudecer-se diante do que está clamando. É preciso falar. Porque a palavra é um ato de calma ou discórdia.
Mas é bem possível que seja a favor. Afinal, visitar e “ser solidário” é estar na mesma linha de entendimento, é dizer “eu não faço porque sou frouxo”, mas me escondo detrás de quem faz. E lambo-lhe as botas. Plantar a ideia de que não sabia dos planos de Putim é que não cola. Porque é preciso ser muito inocente, ou debilitado de mente, para não saber o que o mundo inteiro, repito, o mundo inteiro sabia. Ou então o povo brasileiro pegou um bobo da corte e entregou a ele a dirigência de um dos maiores países do mundo em terra e em povo.
E é bem possível que seja mesmo a favor. Porque, em nenhum lugar do mundo nunca se viu um desfile de tanques de guerra numa praça de poder para a mera e insignificante entrega de um convite. Parece mesmo ser muito afeito a clima de guerra quem, sem nenhuma necessidade, usa aparato de guerra para uma banal atividade do cotidiano: um convite para um evento. E mais afeito a clima de guerra parece ser quem defende que, ao invés de se comprar feijão, deve-se comprar fuzil. E quem defende que é melhor ter uma arma que um livro na mão. Os escombros da alma se revelam nos mais simples gestos da língua.
E o mundo nos ver com desvalor, com escárnio. Porque um estadista que se preze não se omite das causas sérias e latentes do mundo. Um estadista que honra o seu posto não silencia nem trata com indiferença um acontecimento que aniquila um povo. E, se dizem-no um homem de Deus, um homem de Deus não se cala diante de tal abominação. Como no trecho bíblico supracitado.
As ranhuras veem. Porque o mundo não é mais vários, mas apenas um. O que acontece do lado de lá, traz respingos para o lado de cá. O mundo moderno é um dominó empilhado. Tomba uma pedra, todas tombam. E tudo se vê ao mesmo tempo, e todos tudo sabem simultaneamente.
O Brasil não é um paisinho escondido no oco do mundo. Um país que não fede nem cheira. Trata-se de um país envolvido nos principais debates do mundo e da atualidade. Uma nação admirada por muitas outras, uma nação construída por um grande povo, um país onde Deus ainda habita. A nação brasileira merece um Estadista que usufrua de prestígio na comunidade internacional, que visite Nova York e seja aceito nas dependências de um grande restaurante, sentado à mesa com os homens, tratando de assuntos de homem, ao invés de ter que comer um hot dog na esquina com os meninos, labuzando e chupando os dedos.
O Brasil merece um estadista que chegue em um ambiente de poder e os poderosos façam-lhe um cumprimento por questão de respeito, e não só de protocolo. Um estadista que tenha o mínimo de bom senso e empatia diante da morte das pessoas, e não deixe, ou até incentive, uma nação quase que perecer diante das pestes do mundo. Um estadista que, no mínimo, demonstre preocupação e sentimento humano diante da tragédia da morte. Porque a morte é a maior tragédia da vida.
Porque quem cala, consente!!!
Leonicio S. Silva