Vídeo gravado pelo delegado Cassiano Oyama, quando PMs deixavam a delegacia
As divergências entre as duas forças de segurança resultam da Operação “Fructus Putres”, (Frutos Podres), da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MPE). Policiais civis e um promotor fizeram busca e apreensão, com ordem judicial, nessa quarta, na residência de dois militares presos e no 8º Batalhão a PM, na cidade. A operação causou indignação nos militares, o que acirrou os ânimos.
Conforme o delegado Cassiano Oyama relatou em seu áudio, O subcomandante do 8º Batalhão, Capitão Fernando, assinou o ofício entregue a ele. O capitão, de acordo com Oyama, “exigiu” que o ofício fosse recebido, dizendo que os militares não se apresentariam para os depoimentos “não houve tempo hábil para ele compor a escala”. “Perguntei [ao capitão] por que você invadiu a minha sala? Ele me respondeu: ‘Você invadiu meu batalhão!’. E eu falei: ‘Não, estava cumprindo uma ordem judicial’”, relatou Oyama.
“Me intimidaram”, afirmou o delegado. Ele disse ter determinado que o tenente que estava ao lado do capitão Fernando saísse da sala porque portava um fuzil. “Eu não queria que ele ficasse daquele jeito. E ele falou que não recebe ordem de delegados, só recebe ordens do capitão”, disse.
Oyama disse que iria fazer o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por desobediência. “Filmei a saída deles. Força tática. Saíram cantando pneu, me intimidaram, me encararam. O negócio está feio aqui em Paraíso. Espero, espero que desta vez, a cúpula tome uma atitude. Porque a Polícia Civil, por cordialidade, e entendendo que realmente foi uma devassa que tinha que acontecer, calou-se. Acho que agora chega, né?”, concluiu o delegado no áudio que postado nas redes sociais.
Entenda
Conforme nota divulgada nessa quarta-feira pela Secretaria da Segurança Pública (SSP), PC e MPE cumpriram dois mandados de prisão preventiva expedidos em desfavor de policiais militares, cujos nomes ainda não foram revelados.
Além disso, afirmou a SSP, foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas residências dos investigados e também em setores do Batalhão da Polícia Militar em Paraíso do Tocantins, onde foram localizadas e apreendidas substâncias entorpecentes, bem como outros materiais.
A SSP diz que as buscas foram acompanhadas por membros do Comando Geral e da Corregedoria da Polícia Militar, o que os militares negam.
De acordo com a secretaria, as investigações continuam em grau de sigilo, motivo pelo qual não serão divulgadas mais informações. “Após a conclusão dos trabalhos policiais, será emitida nota com o resultado das investigações”, diz a nota.
Revolta e indignação
“O clima na corporação é de total revolta, de total indignação”, afirmou ao CT um militar, que preferiu não ser identificado.
Segundo ele, o 8º Batalhão ficou com os portões fechados por quatro horas, sem que ninguém pudesse entrar ou sair. A sala da P2 foi toda revistada, bem como viaturas. “Foi uma agressão à instituição Polícia Militar”, avaliou a fonte.
A questão aí, conforme militares ouvidos, não foi o cumprimento da ordem judicial, mas a forma de execução, sem qualquer comunicação ao comando e nem o acompanhamento dele. É isso que diz também nota interna do comandante-geral da PM, coronel Glauber de Oliveira Santos, aos policiais militares. “Em primeiro lugar, não discutiremos o mérito das ações, até por que a Polícia Militar tem interesse em apurar quaisquer suspeitas referentes ao seu efetivo e sempre colaborará nesse sentido. Contudo, não concordamos e nunca concordaremos com a forma que o cumprimento dos mandados foi realizado”, ressaltou o comandante.
O comandante diz que já está tomando “providências no sentido de não permitir que ações como essas de afrontamento direto a nossa Instituição voltem a ocorrer”. “Determino e conclamo a todos que não baixem suas cabeças diante do ocorrido e que continuemos como sempre, prestando um trabalho de excelência em defesa da sociedade tocantinense”, conclui o coronel.
“Arrogância e desrespeito”?
Quem também se manifestou sobre o caso, numa dura nota, foi o ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado e ex-comandante do 8º Batalhão de Paraíso do Tocantins, coronel Luiz Cláudio Gonçalves Benício. “A arrogância e o desrespeito com que os integrantes dos órgãos agiram na execução de suas missões contra os policiais militares foram desmedidos”, afirma o coronel.
Para ele, o 8º Batalhão “foi absurdamente invadido sem oferecer ao Comando Geral ou mesmo ao Comando da Unidade qualquer oportunidade de participar e executar a ação”. Apesar de não concordar com a forma, o militar defendeu o cumprimento de Ordem Judicial de busca e apreensão.
O coronel defendeu que “se não houver freio nessas ações desmedidas, outros fatos desagradáveis poderão advir, caso não haja consciência da cúpula da instituições ora envolvidas”. O oficial defendeu os dois PMs acusados: “Dois policiais militares de postura e comportamentos ilibados foram abusivamente presos”, ressaltou.
A Assessoria de Imprensa da PM disse que está avaliando o episódio desta quinta e a SSP afirmou que, por enquanto, não voltará a se manifestar sobre o caso.
(CLEBER TOLEDO)
