Escritor biquense em entrevista ao portal Voz do Bico aborda a atual situação política do Brasil e suas nuances de autoritarismo

sábado, 6 de junho de 2020 às 10:37
Francisco Sulo voz ativa do pensamento progressista na região do Bico do Papagaio – Foto: Arquivo Pessoal

O Brasil, conforme a opinião de muitos observadores político, flerta com o autoritarismo desde a crise que culminou com a queda da presidente Dilma Rousseff em 2015, via impeachment, o que seria, ainda conforme opiniões de analistas político, um atalho formal para os golpes de Estado nas democracias modernas.

No governo do Capitão Bolsonaro esse flerte transformou-se em um namoro explícito à luz do dia há evidentes receio de boa parte da população brasileira, em todos os níveis social e intelectual que pode se transformar em um tenebroso casamento apadrinhado por militares que hoje lota todos os quadrantes do governo federal, políticos oportunistas e seus apoiadores mais aguerridos.

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Na entrevista abaixo, com o escritor biquense, Francisco Sulo, servidor federal, escritor, autor das obras Cotidiano político, Mastigação e Versos da Pandemia, todos disponíveis em amazon.com.br responde a algumas perguntas sobre o que pode ser apontado como fator de motivação para a aproximação da sociedade brasileira com modelos antidemocráticos de governo.

Voz do Bico: Francisco Sulo, o que explica essa guinada de parte dos brasileiros na direção do autoritarismo?

Francisco Sulo: É preciso pensar que todas as democracias, mesmo as mais consolidadas, experimentam a manifestação de sujeitos que não são afeitos a espaços democráticos. Em linhas gerais, eu apontaria algumas razões que gostaria de enumerar melhor aqui.

VB: Tudo bem. E qual seria o seu primeiro apontamento?

FS: Bem, é difícil não apontar inicialmente uma razão de ordem econômica (afinal o capitalismo já dita a forma de organização das sociedades ocidentais há muito tempo), que é o interesse do capital financeiro, do investidor, do empresário e da propriedade privada. Neste aspecto é importante destacar que os regimes totalitários à direita no ocidente sempre foram reivindicados como salvaguarda ao direito de propriedade e ao livre mercado. Tanto em 1937 (instauração do Estado Novo), quanto em 1964 (instauração da ditadura militar) e, inclusive agora, recentemente, na queda de Dilma Rousseff, alegou-se uma “ameaça comunista” ao sagrado direito de propriedade e às relações de livre mercado. Para os grupos abastados não importa o nível de democracia de uma dada sociedade desde que os seus interesses estejam garantidos. Já no que se refere à anuência dos grupos menos favorecidos ao enredo reacionário, é difícil explicar o tiro no pé, já que estão alijados dos meios de produção. É aí que parto para os demais fatores.

VB: E qual é o segundo fator que você apresenta?

FS: O segundo elemento que aponto como fator de convergência de parte da população para posturas antidemocráticas de direita envolve o aspecto do conservadorismo. Manter a estrutura de classes inalterável o tempo todo requer também toda uma estrutura de valores e crenças que apresentem a desigualdade social como algo natural. É preciso incutir na população a conservação social como algo que atribui segurança à ordem social, algo que pode se desfazer quando, por exemplo, se propõem modelos revolucionários. É o que sugerem os conservadores da estirpe de Roger Scruton, recém-falecido, e João Pereira Coutinho. É preciso, então, sugerem os conservadores, que se mantenha intacta a tradição a todo custo. Valores como a família (nos moldes da heteronormatividade) e a religiosidade (a de matriz cristã) se tornam sustentáculos dessa ordem. Bandeiras que representam a dissolução desses valores e instituições são rechaçados através da negação de governos que apresentam perfil progressista, como foi o caso do lulopetismo. Não há espaço para a diversidade no conservadorismo que é a alma moral do capitalismo. É inegável o papel do cristianismo na manutenção da ordem moral “ortodoxa” que hostiliza qualquer alternativa ao capitalismo selvagem.

VB: A que papel do cristianismo você se refere?

FS: Me refiro especificamente neste caso à chancela da tradição e da moral no interior das sociedades capitalistas. A igreja reforça a dominação de classes ao torná-la natural, ao se omitir da luta em favor das desigualdades. A mesma coisa ocorre quando a igreja condena a diversidade e a pluralidade. A ânsia por controle do pensamento e do comportamento faz da igreja uma parceira forte do autoritarismo.

VB: E essa intenção da Igreja de manter intactas as suas crenças e tradições não é autêntica?

FS: É autêntica até o ponto em que se permita conviver com a diversidade. Muitos cristãos se deixam levar pela ideia de que a esquerda no poder limita o direito ao culto e à liberdade religiosa mas nunca se assistiu a tamanha liberdade de crença e de culto quanto ocorreu durante os governos petistas. O problema é que preferem um governo que mantenha a liberdade religiosa apenas para a de matriz cristã, católica ou evangélica. A mesma coisa no que diz respeito à questão de gênero: temem que as instituições sob governos progressistas transformem as crianças em homossexuais e dissolutos de todo o tipo. Esquecem que a homossexualidade não deve ser considerada em termos de simples escolha do sujeito e que governos conservadores têm a sua própria maneira de reagir à questão, que é via sufocamento da manifestação sexual considerada anômala e a legitimação da hostilidade e da violência não só contra minorias sexuais, mas também étnicas, religiosas e culturais.

VB: Há ainda algum outro elemento que complemente a análise?

FS: Sem dúvida. É impossível dissociar de todo esse quadro o papel que o tema da corrupção tem assumido para o segmento antidemocrático (vide a menção recorrente à ditadura militar como um período em que não houve casos de corrupção no governo). Podemos chamar isso de falso moralismo ou moralismo hipócrita, porque a honestidade não é um traço preponderante do nosso caráter, enquanto brasileiros. A nossa desonestidade só requer uma simples oportunidade para ser praticada e indiscrição, para ser revelada. É claro que se trata de uma generalização o que faço aqui. Há milhares de indivíduos que estão aptos a se eximirem da corrupção mesmo tendo oportunidade de praticá-la — e isso também é explicável em termos sociológicos e não propriamente morais. De todo modo, a partir de um discurso anticorrupção elaborado com a intenção de enterrar o lulopetismo, hoje nos encontramos sob um governo igualmente envolvido em denúncias de corrupção e, inclusive, a partir do próprio nicho familiar do presidente da República. Nosso moralismo anticorrupção é criterioso, porém: vale ser corrupto se com isso mantemos a esquerda longe do poder, ainda que sob um regime totalitário.

VB: Você tá sugerindo que todos somos corruptos mas não temos oportunidades de praticar a corrupção?

FS: Como eu disse anteriormente, há exceções, muitas exceções. Tenho dito muitas vezes que a moral é um privilégio de poucos. Muita gente condena indivíduos em pobreza extrema por venderem o seu voto durante as eleições. Para começar, nem todos vendem o voto, apesar da fome, mas pra um indivíduo faminto a fidelidade a um código moral não é a primeira necessidade que ele precisa satisfazer. Seu problema imediato é a fome. Se observar bem, a maioria dos moralistas de ocasião é gente de classe média que não se vê submetida a chantagem política em torno do voto. Ou seja, primeiro você enche a barriga, depois você se preocupa com a convenção moral, artística, os modos de se por à mesa etc. E mesmo esses moralistas saciados podem ser pegos com a boca na botija se lhes confiarmos a gestão da coisa pública.

VB: Mais alguma consideração?

FS: Em último lugar não poderia deixar de enumerar um certo sentimento de identidade que muita gente cultiva com a intenção de se enobrecer socialmente. Tornar-se avesso ao pobre, ao negro, ao nordestino, ao assistido socialmente enquanto se constrói um vínculo social com o branco, proprietário, sulista, etc parece, na minha opinião, uma forma específica de distinção. Em tempos anteriores essa distinção se acirraria com o consumo distinto de produtos artísticos e culturais mais requintados, mas a classe média brasileira sequer dispõe de gosto cultural invejável, algo que só sobrevive em alguns círculos mais elitizados. A classe média brasileira parece que não lê e nem vai ao teatro; prefere os shows de sertanejo universitário e compõe os flancos que hostilizam a pesquisa e a universidade, embora ela mesma componha em sua maioria as salas de faculdades de direito, medicina e outros cursos historicamente ocupados pelos grupos mais abastados. Nesse sentido, essa identidade de “rico” não poderia se aliar a governos populares, de bandeiras populares, a governo de pobres. E se o grupo com o qual o tal sujeito quer se identificar é afeito ao autoritarismo, ele também vai aderir à ideia.

No momento acho que é isso… Outras pessoas podem apontar outros fatores. E não é um assunto fechado. Mas é isso aí.

 

 

 

 

 

 

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