
Por Enio Eklektos
No princípio, criou o homem deuses à sua imagem e semelhança.
Assim, deixem-me contar-lhes sobre os portentos de um dos tais artífices originais que viveu entre nós, criando mitos e lendas, cultura e arte: Sulo – o homem extremófilo do Norte.
Eis que na aridez de uma terra longínqua, onde pairava a escassez de liceus e letramento, onde o sol, altivo, ainda reina impiedosamente – escapando do seu arco de luz apenas os viajantes que se escondem à sombra dos loureiros, ali nasceu ele: incumbido dos proféticos sonhos maternos de trazer os verbos à vida.
Desde então, até a chegada da estação de colheita dos frutos do oráculo, o rio do tempo, no seu curso indômito, prosseguiu inexorável, enquanto o homem do extremo Norte crescia em magistério e ciência – e como o ourives, trabalhava, longânimo, na fundação de sua obra áurea de deidades poéticas.
Na sua saga em busca da magia do lirismo, conheceu os decassílados perfeitos de Bilac; e, na contramão, os anagramas paronomásticos de Leminski. De fato, de tanto flertar com os modernistas, chegou mesmo a enamorar-se da displicência métrica de Drummond, até que por fim decidiu casar-se com uma poesia social e erótica semelhante à de Brecht.
À revelia de Rilke, ele compôs poemas de amor, mesmo em face do medo de amar. Na barganha com Afrodite, conheceu os paradoxos de Eros, até abnergar-se completamente de tudo.
Dizem que se saturou até mesmo do ofício lúdico de escalar o monte de Vênus, vendo na prática a imagem infernal da punição de Hades.
Verdade seja dita, porém: o prazer real com as mulheres, ele conheceu nas orgias com Bukowski. Foi esta a verdadeira fonte do realismo sujo com que o bardo nortenho profanou os corpos de suas divindades mitológicas.
Em suma, foi assim que, segundo os grimórios mais antigos, o nosso menestrel concebeu os manuscritos de Apolo & Dafne.
Enio Eklektos
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