A crônica de Apolo & Dafne: novo livro de Francisco Sulo

terça-feira, 17 de janeiro de 2023 às 10:18
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Foto: Divulgação

Por Enio Eklektos

No princípio, criou o homem deuses à sua imagem e semelhança.

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Assim, deixem-me contar-lhes sobre os portentos de um dos tais artífices originais que viveu entre nós, criando mitos e lendas, cultura e arte: Sulo – o homem extremófilo do Norte.

Eis que na aridez de uma terra longínqua, onde pairava a escassez de liceus e letramento, onde o sol, altivo, ainda reina impiedosamente – escapando do seu arco de luz apenas os viajantes que se escondem à sombra dos loureiros, ali nasceu ele: incumbido dos proféticos sonhos maternos de trazer os verbos à vida.

Desde então, até a chegada da estação de colheita dos frutos do oráculo, o rio do tempo, no seu curso indômito, prosseguiu inexorável, enquanto o homem do extremo Norte crescia em magistério e ciência – e como o ourives, trabalhava, longânimo, na fundação de sua obra áurea de deidades poéticas.

Na sua saga em busca da magia do lirismo, conheceu os decassílados perfeitos de Bilac; e, na contramão, os anagramas paronomásticos de Leminski. De fato, de tanto flertar com os modernistas, chegou mesmo a enamorar-se da displicência métrica de Drummond, até que por fim decidiu casar-se com uma poesia social e erótica semelhante à de Brecht.

À revelia de Rilke, ele compôs poemas de amor, mesmo em face do medo de amar. Na barganha com Afrodite, conheceu os paradoxos de Eros, até abnergar-se completamente de tudo.

Dizem que se saturou até mesmo do ofício lúdico de escalar o monte de Vênus, vendo na prática a imagem infernal da punição de Hades.

Verdade seja dita, porém: o prazer real com as mulheres, ele conheceu nas orgias com Bukowski. Foi esta a verdadeira fonte do realismo sujo com que o bardo nortenho profanou os corpos de suas divindades mitológicas.

Em suma, foi assim que, segundo os grimórios mais antigos, o nosso menestrel concebeu os manuscritos de Apolo & Dafne.

 Enio Eklektos

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