A “Cavalona do Som”, a que estoura os seus tímpanos e deixa você sem dormir

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025 às 11:45
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Foto: Getty Images

*Por Fábio de Alcântara

O desenvolvimento urbano trouxe consigo uma série de benefícios, mas também um conjunto de problemas que afetam diretamente a qualidade de vida nas cidades. Entre esses problemas, destacam-se os excessos de ruídos, sons e barulhos que tornam o cotidiano desgastante. A poluição sonora é uma realidade quase impossível de evitar, com sons emitidos por animais, barulhos de manuseio de maquinário em construção, tráfego de veículos com excesso de buzina, campainhas e até brigas de vizinhos. Contudo, entre todos esses incômodos, o mais tirânico e perturbador é o barulho daqueles que querem impor, de forma autoritária, seu próprio gosto musical.

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O título dado a esta matéria é fictício, mas poderia muito bem servir de referência para o que ocorre nas cidades, especialmente em reuniões festivas de jovens. Atualmente, é comum encontrar indivíduos que não se contentam em escutar sua música apenas para si ou para os participantes de um grupo. Eles sentem a necessidade de impor seu horrendo gosto musical a todos ao seu redor, mesmo aqueles que se encontram a centenas de metros de distância do evento. Essa prática, infelizmente, não se limita a festas particulares ou encontros casuais. Até mesmo o poder público, ao organizar seus espetáculos para implementar a política do pão e circo, contribui para essa imposição sonora. Esses eventos, muitas vezes, ignoram os limites de decibéis aceitáveis e desrespeitam o direito ao sossego da população.

As vicissitudes causadas por essa poluição sonora são inúmeras. Crianças, idosos e trabalhadores são diretamente afetados, mas o impacto vai além. Um meio ambiente sadio e equilibrado também sofre com esses excessos. Estudos mostram que a exposição contínua a níveis elevados de ruído pode causar estresse, insônia, perda de audição e outros problemas de saúde. Além disso, a fauna urbana também é prejudicada, com animais sendo desorientados ou forçados a abandonar seus habitats devido ao barulho excessivo.

Os órgãos responsáveis pela fiscalização, especialmente as polícias militares, que antes atuavam com mais rigor para controlar esses abusos, parecem ter abandonado essa função. Jovens circulam com seus carros, cujos sistemas de som valem mais do que os próprios veículos, espalhando ruídos cacofônicos por todos os lados. A sensação de impunidade é evidente, e a falta de ação das autoridades só agrava a situação.

Está mais do que na hora de se tomar providências contra esses ditadores e tiranos que insistem em impor seus gostos musicais, causando perturbação do sossego alheio. De acordo com o art. 42, inciso III, da Lei das Contravenções Penais, essa prática é considerada crime. A lei é clara: perturbar alguém, o trabalho ou o sossego alheio, abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos, é passível de punição. No entanto, a aplicação dessa lei tem sido cada vez mais negligenciada, resultando em uma sociedade doente, insone e sem forças para sair dessa letargia destruidora.

A dormência das autoridades em agir contra esses abusos é preocupante. A falta de fiscalização e punição adequada contribui para a perpetuação desse comportamento, criando um ciclo vicioso de desrespeito e incômodo. É essencial que a sociedade se mobilize para exigir ações concretas das autoridades. Campanhas de conscientização, maior rigor na fiscalização e punições exemplares são medidas necessárias para combater a poluição sonora e garantir o direito ao sossego.

Além disso, é fundamental que o poder público reavalie suas políticas de entretenimento. Eventos e espetáculos organizados pelo governo devem ser planejados de forma a respeitar os limites de ruído e garantir que todos os cidadãos possam desfrutar de um ambiente urbano mais tranquilo e saudável. A cultura do “pão e circo” não pode ser utilizada como desculpa para violar os direitos da população ao sossego e à paz.

Em suma, a poluição sonora é um problema sério que afeta a qualidade de vida nas cidades. A imposição de gostos musicais, os abusos de som automotivo e a falta de ação das autoridades são questões que precisam ser enfrentadas com urgência. É hora de dizer basta aos ditadores do barulho e garantir que todos possam viver em um ambiente mais tranquilo e saudável. A lei existe para ser cumprida, e o direito ao sossego deve ser respeitado. Somente assim poderemos construir uma sociedade mais harmoniosa e equilibrada.

Fábio de Alcântara, advogado

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