
*Por Fábio de Alcântara
Por mais surreal que pareça a alguns espíritos crédulos – esses sempre entretidos com discursos de esperança socialista, memes progressistas e aplaudidores de “leis do bem” –, a tragédia do Nepal nada tem de exótico na história política dos povos. Desenganem-se os que pensam que barbárie asiática é coisa distante, curioso produto de geografias longínquas, ou apenas uma nota de rodapé nas sinopses moralistas do noticiário internacional. Aliás, o
Nepal, com seus protestos sanguinários, 19 mortos à sombra de bandeiras e prédios governamentais em chamas, apenas encena mais uma vez, com fidelidade canina, o roteiro pelo qual países inteiros trocam liberdade por promessa de justiça social – e recebem, como brinde, a cova rasa onde sepultam seus direitos.
Comecemos pelo evidente, não é o bloqueio de uma, duas, ou mesmo vinte e seis redes sociais que muda a vida do cidadão comum. Isso é apenas o verniz catatônico da
opressão. Quando o governo decreta toque de recolher sob a justificativa de “proteger o povo” – ora, que ironia suprema! – sabemos que, dos palanques do socialismo asiático aos corredores do Planalto, o idioma da tirania tem as mesmas vogais. O povo do Nepal queimou prédios e gritou nas ruas por algo muito mais profundo: o fim da paciência diante de décadas de corrupção, de filhos de políticos esbanjando em iPhones enquanto crianças
esquadrinham o lixo por arroz, de empresários perseguidos até o exílio fiscal, de uma economia morta por gangrena intervencionista. E, no pano de fundo, um Partido Comunista, sempre ele, ajustando a coleira do povo entre um comício e outro.
Mas, afinal, por que uma tragédia no Himalaia deveria preocupar o brasileiro médio, às voltas com filas no INSS e o preço do pão? Simples: o script, meu caro leitor, está em
replay – já vimos o trailer na Venezuela, no ato central de Cuba, nos bastidores da Nicarágua, e agora, o Brasil se arrisca a ocupar a cena do próximo episódio.
Por aqui, não se metralha com balas de borracha. O Brasil inventou algo muito mais eficiente: a caneta, a multa, o processo, a censura sorrateira – que, aliás, nem precisa fazer barulho. Basta tornar réu quem ouse pensar diferente, envolver empresários nas teias implacáveis do burocratismo, transformar cada cidadão num suspeito em potencial. É o totalitarismo gourmet, servido em uma bandeja de boas intenções e votos governistas.
O mecanismo é batido. Começa-se com a lei “inofensiva”, depois uma narrativa benevolente, logo um imposto a mais (“pequeno, só para os ricos”, risos gravados ao fundo),
daqui a pouco, um decreto escondido, uma censura seletiva. E o povo brasileiro, generoso em esperança e curto em memória, vai relevando, vai esquecendo, vai aceitando, até o dia em que acorda e descobre que para respirar é preciso carimbar um formulário triplicado.
Enquanto isso, a máquina da corrupção segue em alta rotação: empresas quebrando, investidores fugindo, empregos se evaporando, o pobre recebendo migalhas em nome do assistencialismo – não para se libertar, mas para que continue dependente, ajoelhado e agradecido. Triste sina: pobre de direita é “alienado”, pobre de esquerda é “cidadão consciente”, sempre refém do cabresto estatal.
E aqui está o detalhe odioso para os engenheiros sociais: o poder jamais pertence ao partido, à dinastia, à oligarquia – o poder é do povo, ainda que o povo frequentemente não saiba disso. Quando silenciamos por medo da multa, da difamação, do tribunal midiático, renunciamos ao nosso maior trunfo, e o país escorrega, a passos firmes, rumo ao desfiladeiro já tão bem mapeado pelo Nepal, pela Venezuela, por Cuba e outros entusiastas do “paraíso dos iguais”.
O Brasil, convém dizer, ainda está no entreato. Ainda há tempo – tempo curto, tempo urgente – de puxar o freio de emergência. Porque a história não perdoa quem não aprende com ela. E, meu amigo, a esquerda não muda – onde pisa, onde legisla, onde censura, onde assiste o povo lutar por comida, ela sempre entrega o mesmo produto: miséria, corrupção, controle estatal e o espetáculo grotesco de jovens morrendo nas ruas, enquanto ministros trocam risadas em mansões.
A pergunta é simples: até quando o brasileiro vai aceitar calado? Nepal está logo ali, no espelho. Você enxerga alguma saída para esse ciclo ou acha que a história seguirá repetindo o mesmo roteiro?
Fábio de Alcântara, advogado
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