
ARAGUATINS – A Comunidade Remanescente de Quilombo Ilha de São Vicente, localizada no extremo norte do Tocantins, no município de Araguatins, é um símbolo potente de resistência negra na região do Bico do Papagaio. Cercada pelas águas do Rio Araguaia, sua história é um testemunho da luta pela terra e pela preservação da identidade ancestral.
O Território e a Conexão com o Rio Araguaia
A Ilha de São Vicente, com sua rica biodiversidade fluvial, é o núcleo da identidade da comunidade. A vida aqui é intrinsecamente ligada ao Rio Araguaia:
Luta pela Territorialidade: A comunidade descende, principalmente, da Família Barros, cujos ancestrais foram trazidos para a ilha (ou receberam a terra após a abolição em 1888) e se estabeleceram por volta da segunda metade do século XIX. A ilha se tornou o espaço vital para a reconstrução de suas vidas, baseada no trabalho na terra, na pesca artesanal e no extrativismo.
Modo de Vida: As práticas produtivas são tradicionais e sustentáveis, incluindo a pesca diária, o plantio de subsistência (mandioca, arroz, feijão) e o extrativismo do coco babaçu. Essa relação com o meio biofísico do Araguaia qualifica a territorialidade quilombola.
História de Lutas e o Protagonismo
A trajetória da Ilha de São Vicente é marcada por intensos conflitos fundiários que, paradoxalmente, catalisaram a afirmação de sua identidade étnica e política:
Invasão e Redução: A ilha, que originalmente abrangia cerca de 2.502 hectares, sofreu invasões de não quilombolas e fazendeiros desde os anos 2000. Esses conflitos, muitas vezes judicializados, forçaram a comunidade a se concentrar em uma área drasticamente reduzida (ocupando historicamente apenas cerca de 1,3% do território total).
Afirmação da Identidade: Foi justamente o acirramento desses conflitos, especialmente a partir de 2010 (com ordens de despejo), que levou a comunidade a buscar o reconhecimento oficial como remanescente de quilombo, mobilizando-se na defesa de seus direitos territoriais.
Lideranças Vivas: A luta foi encabeçada por líderes notáveis, como Salvador Barros e Fátima Barros (reconhecida nacionalmente), que dedicaram suas vidas à causa quilombola, enfrentando ameaças e processos. Eles são lembrados na comunidade como símbolos da resistência e do protagonismo negro no Tocantins.
Conquista Histórica: Após décadas de embates e mobilização, a comunidade da Ilha de São Vicente alcançou uma vitória histórica: em novembro de 2023, eles se tornaram o primeiro território quilombola a ser titulado no estado do Tocantins, um ato de reparação e reconhecimento do direito tradicional.
Cultura e Crescimento
Apesar dos desafios, a comunidade preserva uma rica cultura, transmitida por meio de suas histórias, saberes e formas próprias de usar a palavra. A memória ancestral e a conexão com o rio e a mata são os pilares de sua identidade, que resiste e se recria no Bico do Papagaio.
O quilombo da Ilha de São Vicente, com sua resiliência inabalável, é a prova viva de que a Consciência Negra se manifesta diariamente na luta pela terra, pela memória e pela manutenção das formas de vida tradicionais no Brasil.
(Redação Voz do Bico, Fonte: Gemini)












