O aumento do ICMS e um recado ao novo governador do Tocantins

terça-feira, 3 de novembro de 2026 às 07:31
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Daiane Silva | Jornalista formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)/ Foto: Divulgação

*Por Daiane Silva

Ora, mas vamos conversar um pouco sobre política? E, antes que alguém pense que este é mais um texto para defender direita ou esquerda, já adianto: não é disso que quero falar. Quero falar de gente, de dinheiro no bolso, de responsabilidade e, principalmente, do futuro do Tocantins.

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Vamos começar por um episódio recente que merece nossa atenção.

Dois dias depois do segundo turno das eleições presidenciais, em 27 de outubro, os representantes dos estados se reuniram no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e aprovaram o aumento do ICMS sobre combustíveis, com vigência a partir de fevereiro de 2027.

E não, não estamos falando de PIS ou Cofins. É ICMS mesmo.

A gasolina terá reajuste de R$ 0,07 por litro na tributação, o diesel de R$ 0,13 e o gás de cozinha de R$ 0,07 por quilo. Pode parecer pouco quando olhamos apenas para os números, mas experimente explicar isso ao trabalhador que depende da motocicleta para chegar ao serviço, ao caminhoneiro que atravessa o estado transportando mercadorias ou à família que já faz contas para conseguir comprar o básico.

E vamos dar nome aos bois: pelo Tocantins, quem assinou os convênios no Confaz foi o secretário estadual da Fazenda, Paulo Henrique Souza Vargas, sob o aval político da gestão Wanderlei Barbosa. Sim, estamos falando do governo que está deixando o Palácio Araguaia e de uma decisão que terá consequências diretamente no bolso dos tocantinenses.

E aqui há uma questão que não quero deixar passar: a coincidência das datas. Dois dias depois do segundo turno, uma decisão que aumenta a tributação sobre combustíveis é aprovada. Não há comprovação documental de que tenha sido uma retaliação à vitória eleitoral de Lula, mas o momento chama atenção e merece questionamentos. Afinal, quem paga a conta é sempre a população.

Esse é um dos últimos atos da administração Wanderlei Barbosa que merece ser lembrado quando fizermos o balanço desse governo.

Mas, afinal, por que estou falando disso agora?

Porque o Tocantins está prestes a iniciar um novo ciclo político. E é justamente ao governador eleito, Vicentinho Júnior, que quero dirigir um pedido.

Governador, por favor, não transforme seu mandato em mais uma disputa entre direita e esquerda. Não faça da relação com o governo federal uma extensão das brigas partidárias. O senhor não foi eleito para administrar apenas os interesses de quem votou na sua candidatura. Foi eleito para governar um estado inteiro, inclusive por aqueles que escolheram outro projeto político.

E isso precisa ficar muito claro.

Se o governo anterior deixou problemas financeiros, apresente os números. Se existem dívidas, contratos, obras paralisadas ou dificuldades administrativas, mostre a situação à população. Mas não podemos aceitar que a administração pública se transforme em um jogo permanente de empurrar responsabilidades. Muito menos que o presidente da República seja responsabilizado por tudo o que acontece dentro do estado.

É preciso separar as responsabilidades. O governo federal tem suas atribuições, assim como o governo estadual tem as suas. E, quando as duas esferas precisam trabalhar juntas, que trabalhem!

Ora, se o presidente Lula pode contribuir com investimentos, programas federais, recursos para infraestrutura, saúde e educação, por que criar obstáculos por divergências ideológicas? E, da mesma forma, se o governo estadual tem projetos importantes para apresentar, que dialogue, negocie e busque apoio.

Não se trata de concordar com tudo. Trata-se de compreender que governar exige capacidade de diálogo.

O Tocantins não pode perder oportunidades porque seus representantes não conseguem sentar à mesma mesa. Não podemos transformar diferenças partidárias em prejuízo para quem depende do serviço público.

Pense comigo: a mãe que procura atendimento para o filho em um hospital quer saber se existe médico, não qual partido governa Brasília. O estudante que enfrenta dificuldades na escola quer uma educação de qualidade, não uma discussão sobre ideologia. O produtor rural precisa de estradas em condições de trafegabilidade. O trabalhador precisa de emprego, renda e dignidade.

E quem mora no Bico do Papagaio sabe muito bem que as necessidades não acabam quando saímos da capital. Há municípios que precisam de investimentos, comunidades que esperam infraestrutura e famílias que ainda convivem com dificuldades básicas.

Governador, não seja igual aos que transformam divergências políticas em obstáculos para a população. O aumento do ICMS, aprovado pelos representantes dos estados, é um tapa na cara de quem trabalha, abastece seu veículo, compra alimentos e luta diariamente para fazer o dinheiro render. E essa conta não pesa apenas sobre os tocantinenses, mas sobre milhões de brasileiros dos estados que aprovaram a medida. Não repita esse caminho. Não faça do seu governo uma extensão das disputas ideológicas. Direita e esquerda têm suas ideias, suas convicções e suas diferenças, e isso faz parte da democracia. Mas, acima de qualquer partido, existe um povo que precisa ser representado. Trabalhe em conjunto com o governo federal, dialogue com quem pensa diferente e coloque os interesses da população acima das disputas políticas. Este não é um pedido meu, individualmente. É um pedido em nome dos tocantinenses: não faça como Wanderlei Barbosa. Não deixe que as diferenças políticas custem ainda mais caro à nossa gente. Governe para o povo, e não para alimentar disputas de poder.

Daiane Silva é jornalista formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

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