Bobo da Corte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019 às 08:50
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*Por Leonicio de Sousa Silva

Hitler era um homem inteligente. Saiu do anonimato para tornar-se o maior facínora da história. Mas sua elevação a esse posto não aconteceu por sorte. Havia algo em Hitler inerente a todos, ou quase todos, os grandes líderes: ele era um homem inteligente, um exímio orador. Dominava o poder do discurso como poucos e, com o poder da sua palavra – além do poder que lhe foi concedido, é claro – instigou toda uma cúpula de poder a cumprir a missão que lhe foi dada de matar, exterminar, um povo, uma raça, em prol daquilo que ela chamava de raça pura: a raça ariana. Repito. Para alcançar esse domínio, não tinha ele nas mãos apenas o poder da caneta. Mais do que isso. Tinha o poder da palavra. E o poder da palavra deriva de grande grau de conhecimento. Hitler era leitor assíduo de filosofia, história e política. E o poder da palavra é o maior mecanismo de sedução e enlevamento.

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Gandhi foi outro grande líder que dominava o poder da palavra. Homem culto, sábio, pacífico, foi com sua oratória, seu poder de convencimento, que a Grande Alma – significado da palavra Mahatma – invocou toda a nação indiana a resistir à colonização inglesa na Índia, sem levantar uma arma sequer. O colonizador inglês agredia, açoitava, feria, dominava de todas as formas desumanas e cruéis, mas o povo indiano resistia sem revidar, sem ir pra guerra. O que os inspirou a agir assim diante de tão grande adversidade? O poder da palavra do seu líder, que os seduzia, que encontravam em seus discursos a essência da verdade. Mas para liderá-los pelo discurso, Gandhi tinha o domínio da oratória, do discurso sedutor, pacífico, harmonioso. E todos criam nele.

Usei o exemplo desses dois personagens históricos e antagônicos para demonstrar que, para o bem ou para o mal, o líder precisa ter domínio do que fala, precisa emanar conhecimento, despertar admiração, causar convencimento, provar que sabe mais do que aqueles que estão ao seu entorno, e saber trilhar os mais variados caminhos do conhecimento e da sabedoria, que são coisas plenamente diferentes. Aquele que lidera mesmo demonstra que sabe o que está fazendo, que tem completo domínio das adversidades e que suas decisões serão acertadas e justas. O líder é iludibriável, é percebedor da mais discreta manifestação de desapreço do seu aliado, e tem perspicácia para avaliar o resultado da causa e do efeito. O líder não é pateta. Se o for, ele será, mais cedo ou mais tarde, traído. Antes disso, sua força será diminuída e seu poder, minado.

E é isso que ocorrerá no Brasil, num futuro breve.

Ainda no período de campanha, cheguei a falar para algumas pessoas que, caso Jair Bolsonaro fosse eleito, não governaria durante os quatro anos de mandato. Não sou nenhum profeta ou analista político. Mas entendo um pouco das coisas, na minha ignorância de homem comum. E as coisas já estão – já – encaminhando-se para o que eu disse.

Jair Bolsonaro não passa de um homem de pensamento fraco que em momento oportuno conseguiu ludibriar uma nação de pensamento mais fraco ainda. Primeiro, porque é um ignorante. Não tem conhecimento nenhum sobre diversas áreas das quais ele precisaria ter um mínimo de domínio para poder liderar com eficiência. Não sabe nada de economia, nem de educação, nem de segurança pública, nem de relações internacionais, enfim. E das coisas que sabe, sabe muito pouco. Sua aversão aos debates políticos não eram senão o seu reconhecimento da sua incapacidade de debater, de argumentar, de refletir, de expor, de convencer, de discorrer sobre economia, educação, saúde, segurança pública, desemprego, meio ambiente, temas de relevância política e necessidade social. Preferia convencer pelas redes sociais, que é o mais eficaz canal de convencimento de um povo inculto e pobre cultural e politicamente.

Rodeado de homens muito mais inteligentes que ele – Paulo Guedes, General Fernando Azevedo e Silva, Onyx Lorezoni, Sérgio Moro, General Santos Cruz, General Augusto Heleno, Ernesto Araújo, Almirante Bento Costa Lima, o Vice-Presidente Hamilton Mourão, e agora o General Floriano Peixoto Neto, entre outros – Bolsonaro não soa como líder, não tem força de líder, e não conseguirá sobressair-se das armadilhas do poder que tanto seduz aqueles que querem, querem sempre mais, e agem nos bastidores das arapucas políticas.

Essa primeira “crise” envolvendo o agora ex-ministro Gustavo Bebianno não veio por acaso. Parece algo tramado nos bastidores do podre poder, por alguém que age à surdina. Bebianno foi fiel escudeiro de Bolsonaro na campanha, e sabe tudo do candidato a presidente. Na iminência da possibilidade de sair do cargo de ministro, ele disse que se isso acontecesse, o Brasil iria tremer. E vai. Os amigos tornam-se os piores inimigos.

Primeiro, a influência dos filhos de Bolsonaro no governo do pai não soa bem nem para os seus aliados nem para qualquer cidadão que tenha um espírito crítico. A índole dos filhos de Bolsonaro já veio à superfície ainda no período de campanha. Quem acompanhou o período eleitoral, sabe como os filhos de Bolsonaro manifestavam-se publicamente com palavras, já prevendo uma certa vitória do pai. Então, vimos que se comportaram como filhos de papaizinho que tem poder nas mãos. Agora, Bolsonaro presidente, os filhos continuam influenciando no poder do pai, e isso só servirá para minar a força do Presidente diante dos seus aliados. Os últimos acontecimentos envolvendo a família Bolsonaro remetem-nos claramente para aquilo que um dia poetizou o ilustre poeta Gregório de Matos:

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana e vinha;

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

As palavras do Vice Presidente Hamilton Mourão demonstraram claramente qual a visão que a cúpula do governo tem sobre a influência dos filhos do presidente dentro do Governo do pai. Ele disse que “no momento aprazado o presidente vai por ordem na rapaziada dele”. Então não tem ordem? Como assim? Militar durão, exemplo de marido e de pai, não tem ordem sobre os seus filhos barbados? O que qualquer pessoa de senso crítico percebe é que não, e que se essa pequena influência do filho Carlos Bolsonaro causou um estrago, uma leve crise no governo do pai, e em poucos meses de poder presidencial, ainda virá muito mais. E isso só servirá para propagar cada vez mais a imagem do homem que não tem o controle familiar e, muito menos, político de uma nação. O que o tornará presa fácil entre as raposas do poder que o cercam. Tanto política quanto militarmente.

O certo é que teremos pela frente um governo fraco, incapaz de enfrentar as artimanhas políticas e consolidar o poder, para poder liderar, para poder ter o controle das coisas da nação. Crise, todo governo enfrenta, mas essa pequena crise, em que ficou bastante evidenciada a influência externa, no caso, familiar, não é o começo de um governo consolidado, que tenha o domínio do conhecimento necessário para saber das coisas e da palavra para convencer das verdades, nas que a maior parcela da população acreditou, esperando um Messias.

Na verdade, essa parcela e os demais da nação ganharam de presente mesmo foi um Bobo da Corte.

Leonicio de Sousa Silva

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