É sobre a volta da Ditadura

quinta-feira, 7 de maio de 2020 às 17:58
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Leonicio Silva. Foto: Divulgação.

*Por Leonicio S. Silva

Aqueles que flertam com o regime ditatorial seriam, caso ele retornasse ao nosso sistema político, os primeiros a ser chicoteados por ele. E merecidamente. Pois é sempre assim: aquele que invoca o mal é o primeiro a ser afetado por ele. Essa é a lei de tudo que fazemos na vida. Antes de o mal seguir sua trajetória, primeiro deixa seus dentes e suas marcas em quem, de certa forma, o provocou.

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Beira à imbecilidade. É ignorância estúpida. Em pleno século XXI, depois de uma longa trajetória histórica, social e política no desiderato de um regime democrático, haver pessoas conclamando uma ditadura militar. Um regime que já existiu e que deixou marcas de desgraça na vida de muita gente.

Eu o vivi pouco, cronologicamente, mas não socialmente, pois era ainda criança e não tinha a consciência do que acontecia no mundo. Mas muitos contemporâneos viveram-no. E sentiram-no na pele e na vida. Mas mesmo não o tendo vivido, basta ir às páginas da história para entender que nada havia de bom naquele período. O tolhimento da liberdade de um homem é o maior mal que lhe pode ser causado. Sem liberdade faz-se o que?

Você não discorda, diz apenas amém. Você come a merda que lhe vem. Você é apenas um boneco, não uma pessoa. Você não tem as rédeas da própria vida. Deixando-a ao bel prazer de um sistema que institui aquilo que lhe convém, aquilo que lhe serve, aquilo eu lhe eterniza.

A luta pela Constituição de 1988 foi duradoura e suada. E embora não seja um instituto perfeito – leis são feitas por homens – foi ela quem colocou o Brasil nos moldes da democracia, instituiu cláusulas pétreas, limitou a atuação do Estado na vida do indivíduo, dando-lhe freios, e serviu de alicerce para a construção de todo um edifício jurídico moldado, acima de tudo, no dever de respeito aos direitos humanos de cada homem e de cada mulher.

E para a sua elaboração, foi eleita uma Assembleia Constituinte, composta por integrantes escolhidos pelo povo. Então, ela é fruto da vontade e da necessidade de uma nação. Não é um livro escrito por um homem só. É um livro escrito por sonhos, desejos, necessidades e lutas de uma sociedade resignada, flagelada, açoitada e amputada naquilo que lhe era mais essencial: a liberdade de viver e de sonhar.

Somente no Brasil para acontecer manifestações tão esdrúxulas. Conclamando um regime falido, desonesto e desumano. Pergunte à Alemanha, se o seu povo deseja voltar aos tempos de Hitler? Pergunte à Itália, se sente saudade de Mussolini? Ao Chile, se deseja de volta um Pinochet? E aos venezuelanos, se não querem livrar-se do vil poder de Maduro? Certamente, todos que viveram, ou ainda vivem, sob a vileza de um regime ditatorial, alegram-se em ter-se livrado dele, ou desejam livrar-se, e esconjuram-no de todas as formas.

Entretanto, recamados de plena ignorância e insanidade, alguns brasileiros têm o desvario de ir às ruas protestar contra o regime democrático e invocar uma ditadura militar. Ainda bem que é apenas um pequeno grupejo de alienados. Ainda bem que esse não é o desejo soberano da nação. Porque se o fosse, seria um retrocesso caótico sem precedentes na cultura política de um povo.

E entregar nas mãos de quem mesmo, o poder singular, soberano e ditatorial? Nas mãos de Bolsonaro? Somente pessoas em insana consciência para querer uma tragédia dessas. Não há outra explicação. Deveriam fazer, essas pessoas, exame de sanidade mental.

Bolsonaro não é, nem nunca foi, um grande político. Em sete pleitos federais, quais bandeiras ele levantou? Que luta histórica pode ser lembrada e escrita na sua biografia política? Que contribuição realmente deu para melhorar e modificar alguma coisa no cenário nacional? Então, de repente, dotado de super poderes, seria um Messias para mudar os rumos da história brasileira?

Grandes líderes políticos foram Mandela, que lutou arraigadamente conta o Apartheid na África do Sul. Abraham Lincoln, que teve a coragem de abolir a escravidão nos Estados Unidos e administrou bem o país durante a Guerra Civil, entre 1861 e 1865.

Mahatma Gandhi, que em vinte anos de revolução pacífica, levou o povo indiano a lutar pela sua independência política sem erguer uma arma sequer. Simón Bolivar, que liderou um grande exército contra a Espanha e ajudou na construção da independência política de seis países da América do Sul: Colômbia, Panamá, Venezuela, Bolívia, Equador e Peru.

Angela Merkel, que com austeridade, é apontada como uma das mulheres mais poderosas do mundo e cresceu como uma verdadeira líder, conquistando espaço e credibilidade não só no seu país, a Alemanha, mas em todo o mundo.

Estes sim, dentre muitos outros, podem ser vistos como grandes autoridades políticas, como grandes líderes. Mas nem por isso poderia jamais lhes ser dado o poder soberano e totalitário das suas respectivas nações. Porque, como disse a grande filósofa e doutrinadora Hannah Arendt: “O poder que não é plural é violência”.

Querem agora comparar Bolsonaro a um grande líder, impoluto, incorruptível, ajustado com os grandes pilares de direito, de democracia e de desenvolvimento? Baseados em que, afinal? O que instiga a se pensar isso? Um grande político não é feito só de discurso. É preciso muito mais que isso. Se bem que, até mesmo em matéria de discurso, meu Deus!!!! Tínhamos a Dilma. Agora, o Dilmo.

Não, não procurem grandes qualidades, porque não há. O que há são muitos anos apenas assistindo da platéia os acontecimentos políticos e sociais. Sem nenhuma bandeira levantada, sem nenhuma guerra lutada.

E chegou ao poder máximo da nação por um tino de oportunismo, num momento caótico pelo qual passava nosso sistema político, quando passou a erguer a voz, levantar uma bandeira, defendendo coisas que nunca se preocupou em cumprir, nem cumprirá, porque o que apresentou até agora de diferente dos demais políticos é apenas o discurso iludível do qual se apoderou para passar a ideia de que seria diferente e de que construiria uma nova realidade.

Porém, passado o período de ilusionismo, o que se vê, rotineiramente, é uma pessoa que apresenta descontrole emocional quando confrontado, desequilíbrio na condução das adversidades, desrespeito pelas categorias, principalmente aquelas mais desamparadas, e desapreço pelas instituições democraticamente instituídas.

Alguém que tem como influenciador um alucinado com Olavo de Carvalho, que tem a ideia estapafúrdia de dizer que o Corona Vírus é ficção científica e que as mortes que estão acontecendo é apenas manipulação da opinião pública. Alguém que trata a desgraça dos outros com sorrisinho de bom moço. Alguém que se acha superior a todos os demais e usa o nome de Deus para passar a ideia de bom samaritano.

O que temos é um governo que, pouco a pouco, demonstra ser igualmente deteriorado como o que já temos visto historicamente; um governo que busca fazer alianças com a ala mais podre dos poderes para poder se sustentar; um governo que pretende camuflar seus atos para proteger quem deveria ser exposto sem suas máscaras, para dizer quem realmente é. O que temos é um governo travestido de imaculado, mas que, na sua essência, não se diferencia em grandes coisas do podre poder pelo poder.

O que temos tido de mudança na nossa sociedade? Qual grande projeto foi criado para colocar a educação brasileira nos pilares da qualidade e da excelência? Qual grande investimento foi feito para melhorar a qualidade de uma saúde pública que está entregue aos ratos e às baratas? Quais ideias foram instituídas para proteger o meio ambiente, tema tão relevante e necessário para o bem estar de qualquer povo?

Sobre isso, nem houve incêndios na Amazônia. O fogo não devorou milhares de milhares de hectares de vegetação. Foi tudo ficção. Qual grande projeto foi instituído para fortalecer a segurança pública, para valorizar os seus agentes, para estruturar seus ambientes de trabalho? O que tem sido feito até hoje, que se possa dizer diferencial de um governo que veio para revolucionar?

Ah. Lembrei. Lembrei-me de uma Reforma Previdenciária que manteve o desnível da balança e preocupou-se em favorecer mais os mais favorecidos e açoitar mais os mais açoitados.

É a esse governo que alguns dementes defendem que lhe seja dado o poder total, uno e soberano de uma nação?

Esse pensamento é tão virulento quanto o vírus que assola o mundo e a nós. Mas ainda bem que esse pensamento não vai vingar. Porque, em corda bamba, fica ainda mais difícil de se equilibrar. E pelo visto, a corda não só está bamba. Parece que ela vai arrebentar. Porque é nas grandes tempestades que os caminhos são achados. Ou então, perdidos de vez. E se depender do nosso grande líder, estamos fugindo da boca do leão para cair na boca da serpente.

Leonicio S. Silva é agente da Polícia Civil em Augustinópolis.

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