A segunda cadeira

segunda-feira, 3 de agosto de 2020 às 16:02
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Paulo Martins. Foto: Arquivo Pessoal.

Ao meu pai

Seis e meia da manhã, domingo, dia dos pais. Coloco duas cadeiras no quintal, uma em frente da outra. Com a xícara nas mãos, sento-me. O vento de agosto balança as folhas do coqueiro, se mistura com a fumaça quente do café.

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Caso eu pudesse escolher, agora, uma pessoa para ocupar a segunda cadeira, escolheria o meu pai. Se ele se sentasse aqui comigo, primeiro cruzaria as pernas, em seguida apoiaria os braços em cima delas, como sempre fazia. Depois me abraçaria com os olhos, da forma que só ele sabia fazer.

Meu pai aprendeu muitas coisas, como tirar leite, consertar sapatos, cozinhar, liderar pessoas. Mas não sabia ler, andar de bicicleta e abraçar.

Apesar de criança, lembro-me bem do meu pai preparando a palavra para compartilhar à noite na igreja. Durante o dia, ele se deitava no sofá, do lado colocava uma cadeira, para algum dos meus irmãos mais velhos se sentar.

Como não sabia ler, enquanto um dos meus irmãos lia a Bíblia em voz alta, ele memorizava, repetia várias vezes os trechos lidos. À noite, na igrejinha lotada, abria a Bíblia e pedia às pessoas para fazerem o mesmo. Falava os versículos memorizados, como se estivesse lendo. Ao compartilhar o estudo bíblico, encantava, cativava as pessoas. Não havia quem não se emocionasse com a exposição.

Também nunca aprendeu a andar de bicicleta. Então, em Goiânia, percorria quilômetros de rua a pé. De duas a três vezes na semana, caminhava do Setor Sudoeste até à loja Nossa Sapataria, em Campinas, com o objetivo de comprar material para a sua sapataria.

Um dia colocou na cabeça que iria aprender a andar de bicicleta. Pegou a Barra Circular do meu irmão, a empurrou até o fim da rua de chão. Subia na magrela e desceu a ladeira todo desequilibrado, dançando de um lado para o outro. Bastou o primeiro tombo, que nem foi tão sério assim, para desistir e nunca mais tentar de novo.

Assim como nunca aprendeu a ler e andar de bicicleta, meu pai também não aprendeu a abraçar. Fazia parte de uma família repleta de crenças patriarcais. Cresceu no meio de pessoas que acreditavam que abraçar, beijar, era só para as mulheres.

Ele sempre me abraçava com os seus olhos verdes. Mas não me recordo de ser abraçado por ele com os braços. Enquanto ele me ensinava coisas que os pais ensinam aos filhos, eu tentava ensiná-lo a abraçar.

Sempre que eu o abraçava, ele ficava desconcertado, todo sem jeito. Disfarçava, se soltava do meu abraço e me empurrava para o lado. Embora não retribuísse o abraço, eu sentia que, aos poucos, ele estava aprendendo e gostando de ser abraçado. Eu lia isso em seus olhos, percebia no tímido sorriso esboçado por ele.

No dia em que ele recebeu alta da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), eu o abracei pela última vez. Era um domingo de agosto, depois do almoço, eu me deitei na cama ao lado dele. Dormimos juntos, não sei por quanto tempo. Quando acordei, o abracei demoradamente. Naquele dia ele não me empurrou. Apesar de não retribuir o abraço, deixou-se ser abraçado.

Eu e ele não sabíamos, mas era o último abraço. À noite ele passou mal, sentiu falta de ar. Na segunda pela manhã, voltou para a UTI. Poucos dias depois, saiu de lá sem vida.

Se ele estivesse aqui, agora, sentado na segunda cadeira, dividiríamos uma xícara de café, bebida que ele tanto gostava. Iria ler uma de minhas crônicas para ele ouvir. Ainda antes do almoço, seguraria a bicicleta para ele subir, até se equilibrar e aprender a andar sozinho.

Para comemorarmos a conquista, lhe daria um forte e demorado abraço, como naquele último domingo, antes de ser levado para a UTI.

Paulo Martins é professor, escritor e mestre em Letras.

E-mail: [email protected]

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