116 mil mortos?

quarta-feira, 26 de agosto de 2020 às 16:04
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Francisco Sulo. Foto: Divulgação.

*Por Francisco Sulo

Hoje superamos mais de 116 mil mortes por covid-19 no Brasil. É um número altíssimo em comparação com o número de mortos pela doença na maior parte do mundo, embora ainda menor que o dos EUA, onde a abordagem negacionista também assumiu contornos parecidos com o que ocorre por aqui.

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Mas esse número de mortos é realidade ou ficção? De um lado negacionistas da pandemia se incomodam com o que seria um efeito da politização da doença no mundo, inflando o número de mortos para atingir a reputação dos dirigentes dos países mais atingidos. No caso do Brasil, haveria uma tendência da esquerda em geral e da grande mídia (também considerada esquerdista) em inflar os números para corroer a “exemplar” gestão do presidente Bolsonaro.

Uma outra razão apontada para o alto número de mortos seria a ambição de dirigentes das esferas estaduais e municipais em cooptar recursos a partir da informação de supostos mortos por covid-19, autorizando a emissão de laudos informando como causa da morte o novo coronavírus em vez da causa “real”. O presidente Bolsonaro ainda alegou que se a cloroquina não tivesse sofrido tamanha oposição na opinião pública e tivesse estado presente nos protocolos de tratamento da doença em todo o período da pandemia, os mortos não seriam em número tão elevado.

Do outro lado há a difusão da opinião de que os números atuais de mortos por covid-19 estariam para muito além dos atuais 116 mil, considerando um alto número de suposta subnotificação.

Páginas diversas de checagem de fatos apresentaram evidências de que os boatos sobre a informação de mortes por covid-19 por equipes médicas com vistas à percepção de mais recursos, cumprindo decretos de governadores, omitindo a verdadeira causa da morte de pacientes, não têm fundamento, embora muitas dessas acusações tenham partido de funcionários de hospitais. Um problema em relação a essas páginas de “fact checking” é que elas não dispõem da credibilidade dos afeiçoados ao presidente Bolsonaro, pelo fato delas estarem vinculadas à grande mídia. É o caso de “Fato ou fake”, do G1.

Uma forma de se avaliar se o número atual de mortos realmente é verdadeiro seria verificar o agravamento de números de mortos por outros fatores em relação ao ano passado. Entretanto isso requer pesquisa e os críticos do elevado número de mortos não se dariam ao trabalho. Por outro lado, o elevado número de mortos arrolados na categoria de SARS (Síndrome respiratória aguda grave) sem especificação de causa cresceu absurdamente em relação ao ano passado (este número estava em 40 mil até 1° de agosto), o que aponta para a indicação de que o número real de mortos por covid-19 está bem para além dos atuais 116 mil.

O quadro mais geral em torno da descrença nos números se agrava em função da atitude mais afetiva que crítica em torno do que é a verdade hoje. A quantidade absurda de informações requer que estejamos mais e mais dependentes de especialistas. Entretanto há um descrédito generalizado na ciência, agravado cada vez mais pela hesitação em torno da flexibilidade dos resultados anunciados e na instabilidade das orientações a serem tomadas, como é o caso das orientações repassadas amiúde pela OMS.

É sabido que a ciência avança a partir do confronto de hipóteses com a experiência e que isso requer tempo e muita testagem. Historicamente, uma vacina requer entre cinco e dez anos exatamente em função do tempo de experimentação. Neste sentido a hesitação nas respostas é algo positivo.

Todo esse ceticismo em relação à ciência e às orientações gerais da OMS e de estudos científicos em geral se deve ao que atualmente se costumou denominar de pós-verdade: uma atitude em favor da verdade mais dependente dos afetos do que da própria racionalidade ou empiricidade de uma asserção. Neste sentido, passo a acreditar em algo não porque haja evidências de verdade nisso, mas porque esse algo me reconforta ou porque se acomoda melhor às minhas crenças ou convicções políticas.

Enfim, se os nossos mortos são 100 mil ou 200 mil, isso não vai decorrer, para muita gente, das evidências que apontem para esses números, mas daquilo que me interessa melhor politicamente.

Enquanto isso os números se acumulam indefinidamente.

Francisco Sulo é servidor público e licenciado em Letras.

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