
Nos últimos dias, o governo federal começou a se afastar da recomendação de “tratamento precoce” com um coquetel de medicamentos com ineficácia comprovada contra Covid-19, com o ministro Eduardo Pazuello afirmando que nunca recomendou nenhum medicamento contra a doença. No entanto, o aplicativo oficial do ministério recomenda o chamado “kit Covid” para basicamente qualquer paciente, mesmo que apresente sintomas que apenas são vagamente relacionados à infecção pelo coronavírus.
O aplicativo TrateCov é voltado para o uso de médicos, e não para pacientes, apesar de ser aberto para qualquer interessado em testá-lo. O sistema cria uma pontuação com base em sintomas para iniciar o “tratamento precoce”; o algoritmo entende que, quanto mais pontos, maiores são as chances de que o paciente está com Covid-19.
No entanto, o sistema é claramente falho. Se um paciente diz que está com dor nas costas e dor de cabeça, que podem ser facilmente causadas, por exemplo, por uma noite mal dormida, o sistema entende automaticamente que se trata de Covid-19 e orienta o “tratamento precoce” com o kit Covid. A soma de dois sintomas quaisquer é interpretado como doença, mesmo se o paciente não saiu de casa e não teve contato com ninguém em duas semanas.
Além disso, o sistema não tem nenhum refinamento por perfil do paciente. O aplicativo recomenda os mesmos medicamentos e a mesma dosagem para qualquer um, mesmo se o paciente em questão for, por exemplo, um bebê recém-nascido, ou um idoso com vários problemas de saúde.
Simulei o Kochi(meu dog) como paciente no TrateCov.
Unicos sintomas: Falta de apetite(desde que nasceu)dor de barriga(coco meio mole hj de manha)
Resultado: 2 tipos de cloroquina, Invermeticina e 2 antibióticos.
MAIS DE 20 COMPRIMIDOS POR DIA!!!Isso pra um “paciente” de 23 kgs pic.twitter.com/Mf8KSBZ0Q5— Luiz Persechini???? (@LuizPersechini) January 20, 2021
Pelo código-fonte da plataforma, o sistema está configurado para recomendar o tratamento com o coquetel do “Kit Covid”, composto por dois antibióticos, um vermífugo e antimaláricos sempre que for selecionada a opção de tratamento precoce, independentemente do perfil do paciente.
Segundo o Estadão, o Ministério da Saúde começou a testar o TrateCov em Manaus, com 340 profissionais de saúde que já estão cadastrados, com a perspectiva de expandir seu uso para outras regiões do Brasil.
Quando o médico marcar que não vai recomendar o tratamento precoce com o kit covid sugerido pelo sistema ao paciente, ele também precisa indicar uma justificativa para isso. Entre as disponíveis no sistema estão a recusa do paciente ou indisponibilidade dos medicamentos.
(OLHAR DIGITAL)












