Radiotelescópio Bingo, no interior da Paraíba, investigará energia escura

segunda-feira, 12 de julho de 2021 às 10:58
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O equipamento planejado para 2022 põe o Brasil no mapa das pesquisas sobre expansão do Universo, pulsares, rajadas de rádio e outros temas centrais da astronomia contemporânea.  – Foto: IF-USP/Divulgação

Eu, você, seu cachorro, Júpiter, Andrômeda e todas as outras galáxias são feitos de átomos. Átomos de hidrogênio, principalmente – o elemento mais comum –, mas também de hélio, de carbono, de oxigênio etc. Parece uma constatação boba, mas não é: a matéria como a conhecemos, chamada pelos astrônomos de bariônica, corresponde a apenas 5% de tudo que existe no cosmos.

Ser uma coisa, em suma, é algo raro no Universo. A maior parte do conteúdo de massa-energia na escuridão em torno de nós consiste em duas entidades misteriosas: 27% de matéria escura (que sabemos existir por sua influência gravitacional, mas é indetectável) e 68% de energia escura – uma força que expande o cosmos, arrastando galáxias para longe umas das outras.

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O Brasil está prestes a se tornar um polo importante de pesquisas sobre a matéria escura e muitos outros temas chave para a astronomia contemporânea, como pulsares e rajadas rápidas de rádio (fique tranquilo, leitor, você já vai entender o que são essas coisas). Está programado para o segundo semestre de 2022 o início das operações do radiotelescópio Bingo no município de Aguiar, de 5,5 mil habitantes, no interior da Paraíba. O portal, inclusive, foi para o ar hoje (6) e você já pode espiar.

Essa engenhoca, cuja infraestrutura ocupa uma área equivalente à do Maracanã, é fruto de uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e instituições da China, do Reino Unido e de sete outros países.

A pandemia atrapalhou o andamento do projeto e impossibilitou uma série de atividades presenciais. Por exemplo: peças chamadas “cornetas” (e que de fato parecem sorvetes Cornetto) ainda estão em construção, e telescópios auxiliares menores chamados outriggers estão sendo testados pelos pesquisadores neste exato momento.

Antes de entrarmos em detalhes, comecemos pelo básico: qual é a diferença de um radiotelescópio para um telescópio comum? O que a sigla Bingo significa? Por que ele foi instalado em um lugar tão isolado?

Projeto Bingo/Divulgação

Bingo para iniciantes

Ondas eletromagnéticas – o que chamamos genericamente de “luz” – vêm em vários comprimentos. As mais curtinhas são mais energéticas; as mais longas são mais preguiçosas. A visão humana só dá conta de ondas localizadas dentro de uma faixa de comprimentos muito específica. Essas são as cores que conhecemos; as cores do arco-íris. A caixa de lápis da natureza é muito maior: existem ondas de rádio, microondas, radiação infravermelha, ultravioleta, raios X, raios gama…

Embora essas cores sejam invisíveis para nossa biologia, elas fazem parte do nosso dia a dia: esquentam nossa comida, queimam nossa pele na praia, enxergam o interior dos nossos corpos e, é claro, são o segredo por trás das telecomunicações: rádio, TV, telefonia móvel, wi-fi etc.

O Universo não liga para qual uso os humanos dão para cada tipo de onda. Lá fora, luz é luz. Fenômenos astronômicos liberam radiação em todas as cores, as que vemos e as que não vemos também. Por isso, existem telescópios feitos para enxergar cores invisíveis para nós – e detectam coisas que não conseguiríamos apenas com lentes e olhos. É o caso do Bingo, um telescópio projetado para captar ondas de rádio. Portanto, um radiotelescópio.

Quando você liga uma TV analógica, vê uma interferência cinza, granulada. Uma parcela dessa interferência é gerada por radiação residual do Big Bang que alcança as antenas terráqueas. Essa luz, que data da origem do cosmos, está bastante tênue após viajar por 13,8 bilhões de anos. Ela permeia todo Universo e é chamada de radiação cósmica de fundo.

Lembra que falamos, lá no começo, que o hidrogênio é o elemento mais comum do Universo? Pois é, ele é tão pretinho básico que é chamado pelos astrônomos apenas de “gás neutro”. Quando a radiação cósmica de fundo interage com o hidrogênio, os átomos desse gás neutro dão uma oscilada e liberam um pouquinho de radiação no comprimento equivalente ao rádio. É essa radiação que o telescópio Bingo vai captar aqui da Paraíba.

(SUPERINTERESSANTE)

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