A bênção, padrinho

sexta-feira, 5 de junho de 2026 às 10:39
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Paulo Palmares,63, é editor do portal Voz do Bico. – (Gemini_Generated)

*Por Paulo Palmares

O que explica a dificuldade de um candidato que dispõe da máquina pública, conta com o apoio de um governador com mais de 70% de aprovação e, ainda assim, não consegue cair nas graças do povo? Talvez somente uma profunda investigação da alma humana seja capaz de responder. Afinal, o comportamento do eleitor nem sempre obedece à lógica dos números, das estruturas de poder ou das previsões dos especialistas.

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Nos bastidores da política, é comum ouvir que apenas fatores imprevisíveis podem derrotar um candidato considerado favorito. Outros atribuem eventuais fracassos a uma combinação nada rara de incompetência e arrogância, ingredientes capazes de transformar uma vitória aparentemente certa em derrota inesperada.

No Tocantins, a senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil) deverá disputar o governo estadual com a bênção política do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos). Em tese, trata-se de uma vantagem considerável. As pesquisas mais recentes apontam um cenário favorável, mas a percepção das ruas sugere algo diferente: o nome da senadora ainda não parece ter se consolidado no sentimento popular.

A história mostra que transferência de votos está longe de ser automática. Nem mesmo líderes altamente populares conseguem garantir a eleição de seus sucessores. O Tocantins, aliás, oferece diversos exemplos.

Nos primeiros anos do estado, Siqueira Campos não conseguiu eleger seu candidato à sucessão. Em 1990, José Wilson Siqueira Campos apoiou Moisés Abrão, mas quem venceu foi Moisés Avelino. A disputa entrou para a história política tocantinense. Mais tarde, o próprio Avelino também fracassaria ao tentar fazer de João Cruz, ex-prefeito de Gurupi, seu sucessor.

Décadas depois, a história se repetiria. Em 2010, o então governador Carlos Gaguim não conseguiu se reeleger e foi derrotado por Siqueira Campos. Quatro anos mais tarde, Sandoval Cardoso, mesmo com a máquina administrativa à disposição, também não alcançou o objetivo e perdeu para Marcelo Miranda.

Por isso, seria precipitado considerar qualquer candidatura como favorita absoluta. Eleição não se ganha na véspera, muito menos com base apenas em estruturas de poder ou índices de aprovação. Nos meses que antecedem a disputa, seja Dorinha, Vicentinho, Laurez, Ataídes ou qualquer outro nome que surja na corrida pelo Palácio Araguaia José Wilson Siqueira Campos, todos precisarão buscar suas próprias bênçãos — não apenas dos padrinhos políticos, mas principalmente dos eleitores.

Para isso, será necessário descer dos palanques, percorrer bairros, cidades e comunidades distantes, ouvir as pessoas e compreender suas angústias. A política continua sendo, antes de tudo, um exercício de escuta.

E há muito a ser ouvido.

Dados recentes da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostram que 28,6% da população tocantinense vive abaixo da linha da pobreza, enquanto 4,2% enfrenta a extrema pobreza. Somados, esses índices revelam que aproximadamente um terço dos tocantinenses convive diariamente com algum grau de privação e vulnerabilidade social.

Essa parcela da população não pede favores; pede oportunidades, dignidade e condições mínimas para viver. São cidadãos que necessitam da presença efetiva do Estado para enfrentar carências que vão da alimentação ao acesso à saúde, educação, emprego e moradia.

A pergunta que se impõe é simples: qual dos candidatos estará disposto a ouvir essa gente? Quem se sentará no tamborete improvisado ou no chão batido de um casebre para compreender, sem filtros, a realidade daqueles que sofrem de verdade?

Para a maioria dessas pessoas, discussões ideológicas abstratas pouco significam. O que importa são respostas concretas para problemas concretos. Os mais pobres buscam dignidade material, segurança, trabalho e oportunidades de ascensão social.

Naturalmente, suas demandas não são as únicas. Empresários enfrentam dificuldades para manter seus negócios. Professores reivindicam melhores condições de trabalho. Servidores públicos de diferentes categorias apresentam suas pautas. Profissionais liberais lutam para se consolidar em seus mercados. Todos possuem necessidades legítimas e esperam atenção dos governantes.

A diferença é que muitos desses grupos, de alguma forma, conseguem acessar os corredores do poder. Já os mais vulneráveis, frequentemente invisíveis, dependem quase exclusivamente da sensibilidade e da vontade política de quem governa.

Nesse contexto, parece pouco produtivo que candidatos se apresentem empunhando as já desgastadas bandeiras da direita ou da esquerda como se elas, por si só, fossem capazes de resolver os problemas da população. Quando a política se reduz à disputa de trincheiras, corre-se o risco de esquecer justamente aqueles que mais precisam dela.

O humorista Chico Anysio criou o personagem Justo Veríssimo, um deputado corrupto e hipócrita que declarava ter horror ao povo. A caricatura arrancava risos porque expunha um vício antigo da política: o distanciamento entre representantes e representados.

Quero acreditar que a realidade seja diferente. Quero acreditar que todos os candidatos compreendam a política como instrumento de transformação coletiva, capaz de promover direitos fundamentais, reduzir desigualdades e construir oportunidades. Afinal, quando funciona como deve, a política transforma interesses diversos em soluções comuns e faz da esperança algo mais concreto do que uma promessa de campanha.

Paulo Palmares é bacharel em direito e editor do portal Voz do Bico.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Voz do Bico. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um ponto de vista diferente, envie a sua sugestão de texto para [email protected]

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