
*Por Angelo Cavalcante
Ainda impactados pela matança desatada e apetecida nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, entra em cena a espetacularização mais bizarra e estapafúrdia e que políticos da direita, velhacos e viciados por poder, conseguem conformar e enredar.
Nesses estranhos tempos de negacionismo científico onde a empiria não faz o menor sentido e a estatística é apenas um exotismo de serventia alguma, o solo fértil para toda sorte de demagogia, mentira e manipulação é um imenso latifúndio.
Comecemos pelos territórios…
Os que acham que o território é mera e óbvia demarcação posta em um mapa oficial não sabem da missa a metade.
Território, repara bem… Envolve laço afetivo, identidade, pertencimento, linguagem, familiaridade e um cotidiano que o firma, afirma e o confirma como lugar, ao mesmo tempo, material e imaterial; como substância e porvir; como objetividade e subjetividade; como espaço e tempo; como geografia, história e historicidade.
Vejam…
Na necessidade de nos compreendermos, de entendermos o que somos, porque somos e para onde estamos indo (ou pior: para onde estão nos conduzindo), esse exercício racional, espiritual, intangível e fundamental começa e só pode começar, só pode iniciar, de fato, a partir do território porque isso, essa “coisa” e que tratamos por território, está em nosso corpo, na forma como falamos, como nos expressamos; está na maneira como nos alimentamos e está no tipo transcendente como adoramos os nossos deuses e divindades.
Deixa dizer mais…
O rio que passa na minha cidade está em mim; habita em mim como lembrança, memória, sentimento e história. A montanha, a serra, o desfiladeiro e a chácara do “seu Zé” onde íamos apanhar goiabas, mangas ou cajus… Isso… Isso é território e reside em mim como o sangue que corre em minhas veias.
É por isso que para uma PM brutal, desconhecedora, classista e racista como a do Rio de Janeiro, é tão fácil entrar em uma comunidade e sair “queimando” todo mundo sob o manto putrefato e ensanguentado de um conceito de segurança pública superado e impraticável.
É nesse sentido e nesse sentir que territórios são unidades geográficas tão destacadamente singulares e especiais.
Ora… Por sua potência e multiplicidade cognitiva, ultrapassam, transcendem aos disciplinamentos da geografia e, claro, envolvem a economia, a antropologia, a cultura e se consolida, por conseguinte, como base coesa e íntegra para a própria formação e conformação da psique individual e coletiva das pessoas.
Agora, vá tratar disso com milicos armados até os dentes e sedentos por derramar sangue de pobres, pretos e marginalizados?
Não fará sentido!
O muito certo é que a negativa profunda do conceito gera preocupações porque pode nos levar para um óbvio e arriscado mundo que nega essa dada profundidade; daí para saídas absurdas, perversas e forjadas no aço de fuzis e pistolas… É um pulo!
A sequência desse caos óbvio onde a extrema direita vampiriza na jugular dos abatidos e destroçados é a construção afetiva de uma catarse nacional que busca, em primeiro, afirmar o “acerto e a assertividade” da ação “mundo-cão” do criminoso Claudio Castro, governador do Rio de Janeiro para; em seguida, reafirmar as ideias antimodernas de um fascismo já presente e capilarizado no Brasil.
Por fim, o extermínio explícito e desbragado dessas pessoas é desse modo, a resposta do fascismo ao já próximo encarceramento do genocida Jair Bolsonaro.
O que está acontecendo, na coesão, linearidade, encadeamento e que está efetivamente dado já é um texto, um diálogo, uma comunicação!
É só ler…
Encerro esse ensaio surpreso ante ao patético, ao pastiche cínico e imprestável da feitura, da criação de certo “Consorcio da Paz”, uma piada, um escárnio e composto por beligerantes abertos e assumidos ao estilo de Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr.
É sem fiapo de dúvidas, a espetacularização do caos!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
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