A regra de ouro

quinta-feira, 2 de abril de 2020 às 08:34
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Historiador Francisco Sulo. Foto: Arquivo pessoal.

*Por Francisco Sulo

A gente é leigo em economia mas a experiência, mediante acompanhamento constante dos problemas nacionais, vai nos informando pouco a pouco das motivações subjacentes ao que predomina nas economias nacionais em se tratando de “regras de ouro”.

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Fala-se muito em governos responsáveis, no âmbito fiscal, para proporcionar crescimento econômico mediante a criação de um clima propício para investimentos de empresas e investidores nacionais e estrangeiros. Governos que não cumprem com as famigeradas “regras de ouro” assistem ao esfriamento das ações de investimento, evasão de divisas ou fuga de capitais provados e declínio de índices que medem o perfil de bom pagador.

Quando determinados governos parecem ignorar regras de tetos fiscais é exatamente isso o que ocorre. A substituição desses governos se apresenta necessária em caráter imediato sob quaisquer pretextos, eivados de um mínimo de legalidade e com ampla cobertura midiática por parte de todos os interessados em governos fiscalmente responsáveis.

Geralmente governos à esquerda tendem para o extrapolamento dos gastos e os governos liberais, por outro lado, ao estabelecimento de tetos rigorosos de despesas. Até aqui tudo bem e essa parte até o pobre de direita compreende.

Na prática, porém, sabemos exatamente que tipos de gastos são considerados extrapoladores das regras de ouro. São os gastos sociais do Estado feitos com a saúde, educação e para matar a fome da população, dentre outros.

Isso é quase tão unânime que nem mesmo os grupos mais afetados pela crise econômica da pandemia do Covid-19 compreendeu a assistência estatal durante a crise como responsabilidade do Estado; pelo contrário, seguiu em coro a marcha liberal capitaneada pelo governo de que a economia não pode parar.

O corona voucher, já tramitado no Congresso desde a sexta-feira, sequer foi sancionado pelo presidente e o pobre de direita continua brigando para voltar às ruas.

A crise tem demonstrado que o setor empresarial e bancário, historicamente socorrido pelo Estado em momentos de crise, à revelia de qualquer regra de ouro, não sobrevive sem a presença do trabalhador no local de trabalho, em grande parte dos casos.

A percepção, ainda que forçada, pelo peso das atuais circunstâncias, de que o trabalhador é quem produz, além de representar a maior parte no que se refere ao consumo, direciona o Estado hoje a romper os tetos de gastos para garantir a sobrevivência do trabalhador. Mas compreendamos que isso só ocorre por conta da dependência que o sistema sofre de forma mais cruel agora.

O fato é que o poder total de construção da efetivação da redução das desigualdades pertence à classe tralhadora — e este momento, especificamente, é exemplar neste sentido.

Regras de ouro são marcos que os mais ricos estabelecem, com a condescendência das elites políticas, para garantir que os segmentos subalternos da sociedade continuem nos lugares que historicamente lhes foram reservados enquanto se utilizam de nossas riquezas para manterem sua condição de classe inalterada, ainda que a custos de muita miséria e sofrimento humano.

Já é hora de assumirmos nosso lugar no mundo e estabelecer o peso da nossa vontade. As rédeas e jugo que estão sobre nós são removíveis, embora não tão facilmente, mas requerem pensamento e compreensão comuns para tanto.

Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, ainda que apenas virtualmente neste momento.

Francisco Sulo é funcionário público e historiador.

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