
*Por Angelo Cavalcante
É linda e quente manhã de novembro.
É dia dos que se foram…
Dos que partiram
Dos que criaram
Asas e cruzaram as largas linhas do horizonte
Foram
Deixaram-nos
Partiram como aves de arribação e que buscam seu norte
É dia de morte
Dia dos mortos
Mortos pela fome
Mortos pela fome de justiça
Pelo ato do Estado
Do Estado terrorista
Que lista
Que faz lista de preto
Pobre
Puta
Que chuta no rosto do velho aposentado
Que luta
Na margem
Marginal
Com ação ou
Sem ação
No Complexo do Alemão
Que venha
A bala da pistola
Do fuzil
Que venha
Sem senha
Dos Arcos da Lapa
Ao Complexo da Penha
Venha
Venha a nós o vosso Reino
Seja feita
A desfeita
De dezenas de cadáveres
Lançados
Largados
Despedaçados
Na Praça da Penha
A Praça da escola
Da panificadora
Da creche
Da farmácia
Do pedinte
Do andarilho
Do padre
Do bispo
Do pastor
A praça
Que ficou sem graça
Com o fulgor de tanta desgraça
Raça imunda
De um mundo desmundo
É dia dos mortos
Finados
Passados
Presentes e sempre presentes
Na gente
Na gente que sente
Que se ressente
De tanto ódio
Mágoa
Ressentimento
Mal pressentimento
Porque é Dia dos Mortos
Os mesmos mortos
Que morrem todos os dias
Tardes
Noites e manhãs
São os mesmos que perecem
Fenecem
Descem
Às covas frias e desoladoras
Covas pensadas
Planejadas
Determinadas
Porque o ódio de classe
É o ódio de cor
De pele
De pêlo
Ódio do Pelô
Pelourinho
Para amansar preto bravo
Animal arredio
Vadio
Sempre no cio
No fio da coragem, bravura
Ternura
Pelourinho nosso de cada dia
Onde preto aprendia
Pela chibata
Pancada na lata
Na frontal
Do preto que luta
Chute na fuça
Focinheira ao que grita
Justiça!
Que atiça o tempo
O governo
O poder que faz o desgoverno
Que manda
Que desanda a pátria
O país
A nação
Porque é dia de lembrar quem morreu
Quem morre todo santo dia
Que agonia
Na quebrada da soleira
Que dormia
Até um balaço de fuzil levar seu lado
Seu quadril
Você, pretinho do cabelo de bom-bril
Gente que morre
Toda noite
Na dor
Na agonia
Na fria indiferença
De quem pôde fazer
E nunca fez
Porque nunca
Fazia
É dia dos mortos
De morrer
De nos matar
De nos morrer
Morrer o ser
O estar
O sonhar
O jamais sonhar
Eis a morte
Eis o morrer
É dia
São dias
São anos
Décadas
Séculos
E aos que lutam
Nossa vitória é não morrer
Nosso galardão
Nosso júbilo
É estarmos vivos
Ativos
Em meio a malta militar
Paramilitar
Sedenta por matar
No bairro marginal
Do crime do pó
Do moleque pobre de dar dó
Que entrega o que eleva
Acalma
Assanha
A maconha
Nesses meios
Entremeios
Viver…
Ora… Viver é a grande conquista
É a melhor condição
Para não nos tornamos
Penha
Ou Alemão.
Um saúdo
Um infinito saúdo
Aos que partiram
E às suas lutas inglórias
Seguimos!
Ainda que tristes
Seguimos
Com nossos juízos
Cheios de sonhos
E nossos corpos
Quentes de canduras
Seguimos!
Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Irumbiara
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