Bichos escrotos

segunda-feira, 6 de março de 2023 às 07:01
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Manifestantes invadem Congresso, STF e Palácio do Planalto. – Foto: © Marcelo Camargo/Agência Brasil

*Por Angelo Cavalcante

Bandidos fardados, nazistas de todos os tamanhos e envergaduras e cretinos de todas as linhagens e matizes e muito bem afinados com o golpismo são useiros e vezeiros em afirmar que “meia quatro” nos livrou do comunismo.

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Dizem mais…

Afirmam triunfais que esses “patriotas” libertaram o país de certo “risco vermelho” e que, sem eles, seríamos hoje espécie de “Cuba continental”.

Cid Moreira, o veterano jornalista da golpista TV Globo, das mais famosas vozes da REAÇÃO tratava mesmo a esquerda de, reparem, “trapos vermelhos” enquanto fazia loas e celebrações a banca de militares assumidamente criminosa e incapaz e que, no infame “primeiro de abril de 1964”, assumia a “mano militare”, os acidentados rumos da Pátria.

Ao fim, a caserna golpista e ( sempre! ) subserviente aos desígnios do império dos Estados Unidos precisava justificar a bandalheira e que acabara de desencadear por toda a nação… Nada melhor e mais adequado do que traduzir, converter rusgas, demandas e reclames diários de uma população absolutamente desamparada e miserável como “desordem”, “ação subversiva” ou “estratégia do comunismo internacional”; de sorte que um miúdo litígio ou entrevero por terras na Bahia ou em Pernambuco era compreendido e re-contado como “avanço comunista”.

Mais ainda…

Trabalhadores e que, desde Getúlio Vargas, avançavam na conquista, consolidação e ampliação de direitos como férias remuneradas, seguro-desemprego, licença-paternidade ou liberdade sindical foram imediatamente selados e catalogados como “agitadores” ou no velho e batido figurino comunicante do terror da época de “agentes do bolchevismo”.

Fruto da própria industrialização brasileira e que nos livrou das chibatas e garrotes da República Velha onde oligarcas de Minas Gerais e São Paulo se alternavam no controle do país, era esperado e normal que nesse novo estágio sócio-produtivo do capitalismo brasileiro a sociedade civil se organizasse, se alinhasse, se politizasse mais e cada vez mais.

Para o juízo positivo e odiento dos militares de antanho, a associação de moradores exigindo drenagem, água potável e asfalto na vila é “coisa de comunista”.

Estudantes do grêmio estudantil ou do centro acadêmico ao organizarem o festival de poesia crítica isso, ora… Isso é “alta conspiração” aos mais “genuínos interesses nacionais”.

Artistas e produtores artísticos, sempre na vanguarda e de fato, criadores de vanguardas, dialogam o real com o irreal, o físico com aquilo que é imaterial, abstrato e onírico. Para a gente “verde oliva”, espiem, isso era a “corrupção” da própria alma brasileira logo… “Prendam e arrebentem!”.

Nesse mesmíssimo instante, a arte era potencializada e ampliada mesmo nos interiores e intestinos da União Soviética e por todo o leste europeu; nos Estados Unidos essa mesma arte de ponta, de transformação de valores e sempre na busca por novas sensibilidades e percepções fora decisiva para o próprio aprofundamento da vida acadêmica e universitária.

Por sinal, os artistas, esses “loucos”, foram absolutamente decisivos para a denúncia das matanças intermináveis e intermitentes e que o “libertador” exército dos Estados Unidos fazia no muito agrário Vietnã.

Quem nunca ouviu falar do grande festival de música de Woodstock (1969)… Por sinal, dos principais eventos culturais e políticos da história americana?

Nesse exato período, o regime brasileiro, com caninos e molares lavados em sangue inocente, ingressava na sua parte mais cruel e perversa. Foi baita retrocesso civilizacional, uma “ré” histórica e sob quaisquer aspectos e que se queira analisar.

Não parou… Regime burro, pedante e que apostou fundo na alienação, na ignorância e na estupidificação do conjunto da população brasileira.

Sábios e mestres do pensamento social, ao estilo e peso teórico de Paulo Freire, Celso Furtado, Darci Ribeiro, Florestan Fernandes, Anysio Teixeira, Milton Santos, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra dentre tantas e tantos outros tiveram que, às pressas, buscar refúgio em pátrias outras porque o Brasil passou a ser o maior abatedouro de seres humanos de todo o hemisfério sul.

O rarefeito ensino superior do período foi desmantelado de fio a pavio, de cabo a rabo e de ponta a ponta onde a opção cosmética e fugidia dos “milicos jeniais” se deu pelas ciências exatas, por receitas de pudins e pelas ditas escolas técnicas.

A tortura, o abuso, a humilhação, o assassinato e a ocultação de cadáveres viraram abertas e assumidas políticas públicas, dispositivos banais e corriqueiros e que apeteceiam em todos – TODOS – os municípios e rincões do Brasil.

É absolutamente impossível se contar a quantidade de crimes e que a “militaresca” irrompeu por aqui. Incontáveis e inumeráveis ilegalidades a envolver mediações e dosagens do poder, prisões descabidas, assassinatos em série, adulteração e forja de provas, documentos e testemunhos; estupros de crianças, velhos, velhas, mulheres e jovens; invasões domiciliares e mais uma plêiade, uma constelação de absurdos.

Reparem bem… O exercício da advocacia passou a ser dos mais notáveis riscos para um profissional. O mero, corriqueiro e usual dispositivo de ir a um presidio ou delegacia para ouvir – só ouvir – o “réu”; ler uma ficha, tomar pé e conhecimento de um processo poderia representar grave ou gravíssima ameaça ao bravo e ousado advogado e que assim o fizesse.

Santo Deus… A muito informatizada juventude dos dias de hoje não tem a menor noção do que estou a tratar…. É normal porque, de fato, foi tudo completamente sem noção, sentido ou lógica.

Um despautério, um disparate, uma tragédia e sem precedentes.

Eu… Não raro, tenho, ainda tenho que ver “zumbis políticos”, uma gente “morta-viva” a louvar e render graças a generais assassinos, corruptos e genocidas.

E cantarolam abobalhados: “…Naquele tempo…”!

Naquele tempo, seu estupido… Era merda!

MERDAAAAAAAA!

Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.

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