Cidadão não!

terça-feira, 7 de julho de 2020 às 08:54
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Leonicio Silva. Foto: Divulgação.

*Por Leonicio S. Silva

Acabo de ler a matéria que informa que uma mulher do Rio de Janeiro, que trabalhava na empresa TAESA, foi imediatamente demitida, após uma reportagem do Fantástico, no último domingo. A mulher, que não sabemos o nome, desrespeita um fiscal, falando com extrema arrogância, após o profissional referir-se ao seu marido, chamando-o de cidadão. Ela retruca: “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado, melhor do que você”.

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Resultado da brincadeirinha? Demitida sumariamente da empresa em que trabalhava. Vai integrar a fila de mais de 12 milhões de desempregados. E espero que demore muito tempo para arrumar outro emprego. Bem feito para ela. Queria poder encontrá-la cara a cara, e rir muito da cara dela.

Mas porque resolvi escrever sobre algo tão, talvez, sem importância no mundo das notícias? Algo que ocorreu e ocorre quase todos os dias nas ruas do Brasil afora? Porque vivemos em tempos de tragédias. Mas não falo apenas das tragédias naturais. A maior tragédia que vivemos em nosso tempo é a tragédia humana. A arrogância, o preconceito, a mesquinhez, o desrespeito, o orgulho, a vaidade, a ignorância… e por aí vai.

São essas algumas das mazelas que apodrecem os esgotos do espírito humano de muitas pessoas por aí. Não há apenas uma onda de racismo, não. Não há apenas uma onda de violência psicológica, não. Não há apenas uma onde de corrupção, não. Há sim, e muito fétida, uma onda de arrogância tomando conta dos pensamentos, das palavras e dos gestos de muitas pessoas. E isso dá nojo.

Alguém sentir-se superior a um fiscal, porque ele trabalha nas ruas e ganha pouco. Alguém sentir-se superior a um policial, porque ganha trezentos mil reais por mês, enquanto aquele ganha apenas mil reais por mês. Alguém sentir-se superior e melhor porque tem uma pele branca. Alguém sentir-se melhor porque tem uma casa valiosa e um carro de luxo!!! Sempre houve essa espécie de lama apodrecida percorrendo as fossas da alma humana. Mas, nos últimos tempos, isso tem crescido desmesuradamente. E assusta!

Deixem que esses hipócritas morram. A morte nivela todas as pessoas. O diploma de curso superior, a conta bancária, o carro de luxo, a roupa de grife, o sapato da moda, o vinho caro, a joia rara… Nada disso será levado, nada disso terá valor, nada disso será status, quando chegar a hora de se igualar a todos: a morte.

Sinto-me extremamente indignado, sempre que vejo atitudes de petulância e de desrespeito para com qualquer pessoa que seja. Seja ela criança, velhinho, branco, preto, rico, pobre, machão, afeminado, enfim. Pessoas que agem assim têm um esgoto na alma, cheio de insetos e lixo apodrecendo. Não são diferentes dos vândalos que quebram portas, que picham muros, que promovem violência nas ruas e que desafiam as leis. São iguaizinhas, e merecem desprezo. Porque são mais desprezíveis do que imaginam. Têm menos valor do que supõem.

A onda de superioridade humana está se alastrando pelas ruas, nos locais de trabalho, nas praças, principalmente naquela de Brasília, no trânsito, nos lares. E até nas igrejas. É um mal. É uma lama. É o pus das almas putrefatas.

Bem feito, senhora Não Sei Quem. Você merece muitas gargalhadas. O que é preocupante é que essa senhora é apenas uma, dentre tantas pessoas por aí com a mesma índole ridícula, com o mesmo caráter nefando.

Mas não esqueçamos nunca.

A morte iguala todos os homens.

Leonicio S. Silva é agente da Polícia Civil em Augustinópolis.

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