Corrupção: a incoerência entre odiá-la e reeleger quem a pratica

quinta-feira, 12 de novembro de 2020 às 15:04
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Karem Neiverth. Foto: Reprodução.

*Por Karem Neiverth

Por que os eleitores abominam a corrupção ao mesmo passo que reelegem corruptos?

Em ano de eleições, época de sentimentos aflorados e uma sensação angustiante de injustiça, muitas são as perguntas que passam pela minha cabeça.

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Até que em uma madrugada de estudos, me deparei com um artigo preciosíssimo do professor, jurista e doutor em Direito Penal Flávio Augusto Gomes. Me encontrei em uma demorada e profunda reflexão. Por que as pessoas ainda votam em pseudo-representantes tão desqualificados, que usam de má-fé para iludir o povo?

De maneira muito precisa, Dr. Flávio Augusto trabalha acerca dessa aceitação e normalização da corrupção através da neuropolítica. Para ele, nossa memória é a grande responsável por essa tragédia ética. De fato alguns eleitores trocam o voto por dinheiro ou dentaduras, sapatos, celulares, litros de gasolina. Mas isso é uma minoria. São as massas (de todas as classes sociais) que decidem as eleições.

Vejo jovens (alguns, claro, com medo de perder seus cargos na prefeitura) defendendo o retrocesso. Vejo pessoas que, infelizmente, não tiveram oportunidade de acesso a informação adequada defendendo gente mesquinha e corrupta. Ao mesmo passo também que vejo pessoas instruídas e capacitadas defendendo o indefensável. Justificando o injustificável. Todas as classes sociais votam no retrocesso. Como isso acontece?

A explicação, para além de outros fatores, também está aqui: nosso cérebro memoriza e aprende as coisas da vida por meio dos êxitos, não dos fracassos. Deixamos fracassos de lado rapidamente. Quem gosta dos nossos fracassos são os nossos inimigos. Deixe-os então para eles. Nós gostamos dos êxitos.

A verdade é que nossa memória registra pouco dos nossos fracassos. O que mais queremos na vida são as recompensas, as vantagens, os benefícios, a sensação de bem-estar, a satisfação dos interesses, o prazer, a alegria, enfim, as coisas boas. Nas nossas ações diárias, quando ativamos esse sistema de recompensa, queremos resultados prazerosos.

Se eles acontecem, nossa memória (por força de uma série de mecanismos cerebrais) registra o ocorrido e nos faz aprender, ou seja, nos faz reproduzir no futuro o mesmo comportamento para obter novas recompensas. Se votamos ou apoiamos um político e ele nos traz benefícios, nosso cérebro aprende que a reprodução do mesmo gesto ou voto pode gerar novos estímulos de recompensa.

O povo esperava dele novas retribuições. Os políticos experientes sabem que as massas dão prêmios ao passado de êxitos (repita-se: ainda que se trate de um ditador ou de um populista, isso acontece); elas reconhecem o que de bom foi feito para elas.

Neuropoliticamente explica-se que nosso cérebro produz dopamina quando tomamos decisões em busca de recompensas, desprezando a aversão a perdas. Em suma: tomamos decisões sob dopamina. Repetimos o voto em quem nos produz recompensas e alegrias.

Detalhe fundamental: nosso cérebro suporta uma cidade destruída, a redução dos direitos individuais e sociais, as decisões impopulares e até mesmo a corrupção do político, desde que ele nos tenha proporcionado recompensas.

A receita dos políticos é muito simples, em termos de popularidade: se quer conquistar o povo é preciso que proporcione alegrias para ele, mesmo que momentâneas. Como dito ali em cima, uma simples dentadura, um par de sapatos, certa quantidade de combustível.

Sob o efeito dessa felicidade momentânea (a qual o cérebro relembra a cada 4 anos) é que os olhos, os ouvidos e a boca dos eleitores são fechados. É sob o efeito dessas recompensas pífias que os eleitores perdem a memória de 4 anos que se passaram. É sob essa felicidade cega que fecham os olhos para cargos comissionados que enriquecem e compram carros 0 km enquanto o povo que anda a pé não dispõe do direito de andar ao menos em uma via pública limpa.

É sob essa falsa sensação de satisfação e felicidade que tapam os olhos para a roubalheira. Que aceitam a putrefação ética. Em regra, não importa (ou não importa muito) eventual envolvimento dele com a corrupção. E sobre essa sensação de recompensa são eleitos os perversos, que perdem a vergonha de colocar para fora seus pensamentos de podridão.

E o pior de todos os fatores: é em consequência dessas recompensas momentâneas que nascem os políticos vigaristas, corruptos e desprezíveis.

Cláudio Abramo, da organização não-governamental Transparência Brasil, também opina sobre o assunto. Para ele, “O trabalhador acorda cedo, trabalha o dia inteiro, chega em casa cansado e vai dormir. Nesse quadro, ele se torna refém de qualquer político que ofereça facilidades momentâneas. Acontece o que se vê, a troca de votos por alimentos, remédios, cargos e até por dinheiro. E com as sucessivas reeleições os políticos formam verdadeiras quadrilhas criminosas e fortunas invejáveis”.

Karem Neiverth é estudante de Direito em Guamiranga (PR).
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