
*Por José Maria de Resende
Tenho visto, com frequência, textos e falas de pessoas dizendo que o coronavírus veio pra fazer o ser humano se superar e tornar o mundo melhor quando isso passar. Vejo desde autoridades, filósofos, cientistas e a gente do senso comum proclamando isso. Muitos chegam ao delírio de dizer que assistiremos a queda do capitalismo.
Esse povo que acredita em queda do capitalismo e em era mais humana no pós epidemia vive no mundo da lua. O capitalismo tem uma capacidade de readaptação e de apropriação como nenhum outro modelo econômico jamais teve.
Passada a pandemia, restará os escombros de uma sociedade onde as pessoas estarão passando por cima umas das outras em seu desespero pela sobrevivência em um mundo cheio de mortos, de miséria e de gente quebrada e desempregada.
O Estado descerá a bota e o chicote nos mais pobres como nunca fez antes a fim de recuperar o que foi gasto e retirado dos cofres públicos na pandemia e para garantir as benesses e privilégios dos políticos e da elite multimilionária que os financiam e os colocam no poder.
O ser humano já superou várias crises e tem a capacidade de superar crises. No entanto, ao longo da História, isso nunca melhorou o ser humano. Basta ver o que acontece mundo afora, onde temos várias ditaduras espalhadas pelo globo, onde temos os judeus que tiveram os seus compatriotas exterminados pelos nazistas e que hoje massacram e impõem uma vida miserável aos palestinos. Basta ver o fosso que separa ricos e pobres mundo afora, as várias guerras e desestabilizações de regiões e nações por parte de países ricos que assim o fazem pra surrupiar as riquezas das regiões desestabilizadas.
Que melhoria de humanidade há advinda de países que embargam outros países em nome de divergências políticas com os seus líderes, onde os verdadeiros punidos são os seus povos e não os seus líderes?
Que melhoria de humanidade há quando vemos pessoas usando da religião para enriquecer às custas da miséria alheia e quando os fiéis lotam os templos pra fazer sinal de armas com os dedos? Há aqueles que papam hóstias dentro da Igreja e, tal qual a turma da arminha com o dedo, disseminam todo tipo de ódio, preconceito, calúnia e intolerância contra os seus irmãos.
Que melhoria de humanidade há quando o indivíduo pratica o bem por medo de punição divina e por temor de ir para o inferno e não por ser de fato bom ou solidário?
Que melhoria de humanidade há quando as pessoas tem por prazer o ato de queimar mendigos e jogar água em indigentes que dormem na calçada das grandes cidades no rigor do inverno? Não que em outras épocas do ano seja justo ou correto jogar água em indigentes.
Que melhoria de humanidade há quando as pessoas “ajudam” os mais necessitados visando postar fotos em redes sociais para ganhar likes através da humilhação e exposição da miséria e dificuldade do outro?
Que melhoria de humanidade há quando o indivíduo cobra de 50 a 100 reais para realizar, no aplicativo do governo, o cadastro da renda emergencial para aquele cidadão que nada tem?
Que melhoria de humanidade há quando vemos uma África desdeixada e desnutrida e onde até crianças são armadas e usadas nas milícias que disputam ou controlam o poder em várias das suas regiões? Até nos morros do Rio de Janeiro acontece esse tipo de coisa, perpetrada pelo tráfico que ocupa espaços negligenciados pelo Estado que é omisso quanto às necessidades daquelas comunidades.
É muito desconhecimento da realidade e delírio achar que teremos uma humanidade melhor no pós pandemia e acreditar nisso no Brasil, cuja população venera um genocida e aplaude assassinos e torturadores, desejando todos os dias que os que discordam da sua veneração morram.
José Maria de Resende, 47 anos é professor de História na SEEDF












